TV OVO completa 30 anos e comprova que cinema é para todos

O pensamento comum no meio audiovisual, de que ninguém faz cinema sozinho, tem suas razões para existir. A quantidade de atores envolvidos em uma produção é uma delas – são profissionais de diferentes áreas, da direção à maquinaria, passando por produção, câmera, áudio e tantos outros. Foi com essa ideia do fazer em conjunto que a TV OVO, coletivo audiovisual de Santa Maria, projetou-se por três décadas.

Iniciada como uma oficina de vídeo na periferia (Vila Caramelo), a entidade celebra mais um aniversário com inúmeras conquistas. Entre elas: ser ponto de cultura certificado pelo Ministério da Cultura (MinC) desde 2005; ter sido autora e colaborado com diversos tipos de produções – desde videoclipes, passando por curtas, documentários (seu carro-chefe) ou ficção, até um longa-metragem premiado –; servir de espaço contínuo na formação de adolescentes e jovens; e atuar como fomentadora do setor, principalmente, mas não apenas, na região central do Rio Grande do Sul. Porém, diferentemente de um filme, que registra cenas de um tempo que já se foi, a TV OVO joga os holofotes para o presente e segue em frente, com projetos em andamento no audiovisual, mas um em especial, que é a continuidade da obra do seu centro cultural: o Sobrado.

“Cada ação que a TV OVO faz, enquanto coletivo, que é como a gente trabalha, sempre busca melhorar o que está posto, e isso importa mais do que qualquer adversidade encontrada pelo caminho nesses 30 anos. Então, tem muita doação, muita falta de recurso, mas também não nos falta motivação para ir adiante, trabalhando com a comunidade”, pontua Marcos Borba, um dos fundadores do coletivo, que ingressou no grupo aos 16 anos.

Equipe reunida para planejar as atividades de 2026. Foto: João Pedro Ribas

A data que marca a efeméride de 30 anos é 12 de maio. Nessa dia, às 15h, está agendada uma sessão especial na Câmara de Vereadores de Santa Maria em homenagem à TV OVO. Antes disso, em 8 de maio, ocorre o lançamento no YouTube do filme Cartas de Felippe (que busca recuperar a arte e a política do santa-mariense Felippe D’Oliveira, expoente da literatura do início do século XX), dirigido por Marcos Borba.

As atividades celebrativas estendem-se por todo 2026, com diferentes iniciativas. Estão na programação, por exemplo, exibições gratuitas e o lançamento no YouTube do documentário Morada, dirigido por Neli Mombelli (contemplado pelo Edital 002/2023 da Lei Paulo Gustavo da Secretaria de Cultura de Santa Maria) – obra que traz reflexões sobre pertencimento, direitos estudantis e as marcas que carregamos, e deixamos, nos lugares por onde passamos. Também está em processo de finalização a série Rock do K7, dirigida por Marcos Borba e Neli Mombelli, que conta a história de 10 veteranas bandas de rock gaúcho. Esse projeto, que une música e cinema, tem financiamento do Instituto Estadual de Cinema do Rio Grande do Sul, Pró Cultura RS, Secretaria da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura e Governo Federal – Brasil: União e Reconstrução, bem como apoio da Locall e a Finish como produtora associada.

Durante o Festival de Gramado de 2025, a TV OVO recebeu uma das conquistas mais marcantes de sua trajetória e que também marca a história de Santa Maria: foi agraciada com o Kikito de Melhor Longa-metragem Gaúcho e de Júri Popular para Quando a Gente Menina Cresce, dirigido por Neli Mombelli, aprovado no edital SEDAC n° 01/2022 – FAC Filma RS – Financiamento Pró-cultura RS. O primeiro longa da TV OVO, que discute a primeira menstruação e acompanha um grupo de meninas que vive a transição da infância para adolescência em uma escola pública na periferia, também recebeu Menção Honrosa para o elenco feminino.

“Somos reconhecidos por nossos documentários de curta-metragem, sempre relacionados a temas sociais. Então, quando decidimos produzir um longa, foi um mergulho num formato diferente e novo para todos nós. O reconhecimento do filme pelos dois festivais mais antigos e tradicionais do país, que são o de Gramado e de Brasília, nos deu imensa alegria, já que esse tipo de janela é dificílima de acessar. E isso também aumenta a nossa responsabilidade, para que possamos seguir fazendo mais e cada vez melhor”, reflete Neli, que está na TV OVO desde 2009 e é a atual coordenadora geral.

Kikitos chegam na EMEF Sérgio Lopes, na Vila Renascença, onde foi gravado o longa. Foto: Prefeitura de Santa Maria

Desde o início, na Vila Caramelo, quando gestada em meio ao movimento das rádios e TV’s comunitárias, a TV OVO pautou sua atuação cultural na educomunicação e na coletividade. Essa postura rendeu reconhecimento nacional por meio dos prêmios Escola Viva (2007), Selo Cultura Viva (2007), Ponto Mídia Livre (2010), Selo e Prêmio Cultura Viva (2011), Ponto de Memória (2013) e Culturas Populares (2019). Reforça, ainda, a relevância da entidade, o fato de ter se tornado Pontão de Cultura, em 2009. A certificação possibilitou parcerias, acesso a recursos financeiros e mais visibilidade para projetos.

Lar do cinema no casarão de 110 anos

A TV OVO fica em uma área anexa ao casarão histórico (construído em 1916) na esquina das ruas Floriano Peixoto e Ernesto Beck. O espaço, adquirido pelo jornalista Marcelo Canellas e com escritura doada à TV em 2016 – como presente pelas duas décadas de serviços prestados – deve tornar-se um complexo cultural (saiba mais aqui). A proposta em andamento prevê transformar o local e o galpão no mesmo terreno em um centro voltado às artes, com ênfase para o audiovisual.

A primeira fase da restauração do Sobrado Centro Cultural captou recursos a partir da Lei de Incentivo à Cultura do Estado, o que permitiu fazer as primeiras intervenções na infraestrutura do casarão. No momento, parcerias com o poder público, por meio de emendas parlamentares, têm viabilizado a acessibilidade do prédio, com a construção de rampas de acesso, finalização de escadas, colocação de guarda-corpo e instalação de uma plataforma elevatória. As emendas foram direcionadas pelo vereador santa-mariense Werner Rempel e pelo deputado estadual Valdeci Oliveira. A partir dos avanços na obra proporcionados por esses recursos, será possível realizar as primeiras atividades abertas à comunidade no local.

“Temos nos dedicado a este projeto desde 2012. Ele é complexo e necessita de muitos recursos e de muitos profissionais de outras áreas, por se tratar de uma obra e de um bem tombado. Acreditamos no papel dele para dinamizar a circulação de bens culturais na cidade. E, também, por ser mais um espaço agregador de ideias e de ações que tenham a nossa identidade, bem como a formação de jovens no centro dos debates e das atividades a serem oferecidas”, pontua Denise Copetti, que integra a entidade desde 2007 e atua, sobretudo, na produção executiva.

Casarão deve abrigar sala de cinema independente no segundo andar. Foto@alicefotografafilmmaker

Ainda há muito a ser feito para se chegar na execução final do projeto. Para isso, a TV OVO tem inscrito projetos em editais e buscado viabilizar a obra pela Lei Rouanet. A primeira etapa das melhorias estruturais, aprovada pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do Rio do Grande do Sul, está concluída. Essa parte contemplou reforma interna do casarão. Interessados em contribuir com a captação de recursos podem entrar em contato pelo e-mail sobrado@tvovo.org.

O projeto do Sobrado Centro Cultural prevê, no primeiro andar, um café para sediar a socialização de saberes, debates e mostras durante o happy hour. No mesmo piso, deve ser montada a Biblioteca do Audiovisual Sérgio de Assis Brasil (importante nome do segmento na região centro do Rio Grande do Sul), com acervo de livros e filmes de acesso gratuito para a população. Ainda no primeiro nível da edificação, o objetivo é alocar o museu da imagem e do som, com materiais brutos feitos pela TV OVO ao longo dos anos – e que é constantemente atualizado. Já no segundo andar, a ideia é uma sala de cinema com programação contínua voltada para lançamentos nacionais.

O Sobrado Centro Cultural pretende fomentar o estudo, a discussão e a produção audiovisual também no prédio anexo. Nele, além de o segundo andar abrigar a futura sede da TV OVO, o terceiro conta com área para oficinas, workshops e coworking. No primeiro piso, a intenção é fazer um estúdio para produções de cinema e TV, que também pode ser utilizado para espetáculos, shows e saraus. E, no subsolo, outros dois estúdios menores estão nos planos: um para pequenas produções audiovisuais e outro voltado para a produção sonora.

História que daria filme

A TV OVO tem uma trajetória que renderia um bom roteiro, principalmente pelo lado social. Em 30 anos, desenvolveu inúmeros projetos e oficinas em comunidades periféricas e escolas públicas. Foram realizadas ações de formação, cineclube e núcleos de vídeo comunitário nos projetos Ponto de Cultura Espelho da Comunidade, em Santa Maria, e Pontão de Cultura FOCU em Pontos de Cultura do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Há, ainda, o projeto Por Onde Passa a Memória da Cidade que, desde 2008, recupera a história de pessoas, ruas, bairros e distritos de Santa Maria.

Merece destaque, ainda, o trabalho junto à Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss de Santa Maria (AVTSM), no qual a TV OVO colaborou na organização de espaços de discussões sobre a tragédia e registrou o desenrolar da busca por justiça. De parte desse processo, foi produzido o documentário Depois Daquele Dia (2018), dirigido por Luciane Treulieb, licenciado para o Canal Brasil em janeiro de 2023, e a série Boate Kiss: a tragédia de Santa Maria (2023), com direção de Marcelo Canellas, para o Globoplay. Outro trabalho de destaque é a série documental Nova Santa Marta, com três episódios (Cidade de Lona, Cidade de Madeira e Cidade de Concreto), com direção de Paulo Tavares e Alan Orlando, que resgatam os 30 anos de uma das maiores ocupações urbanas da América Latina (contemplada pelo  financiamento do edital 002/2023 da Lei Paulo Gustavo, por meio da Secretaria de Cultura de Santa Maria).

O tempo também permitiu a TV OVO construir pontes por meio de parcerias com TV Brasil, Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Canal Futura e TVE-RS. Há mais de uma década, a TV OVO atua em projetos pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) de Santa Maria voltados para a produção de documentários a respeito da memória local. Já são mais de 40 produções sobre culturas populares, saberes tradicionais, histórias de ruas, bairros, distritos e toda a sua gente. O currículo da TV OVO contempla ainda oficinas de realização audiovisual em escolas municipais, colóquios e workshops para ampliar o conhecimento e fortalecer a cadeia audiovisual.

Por Homero Pivotto Jr.

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