“Quando a Gente Menina Cresce” estreia em Santa Maria nesta quinta-feira

​Uma vivência compartilhada por diversas meninas e mulheres, muitas vezes permeada por inseguranças e silêncios, agora chegará ao grande público. “Quando a Gente Menina Cresce”, primeiro longa-metragem da TV OVO, estreia no dia 24 de setembro, no Cinépolis do Shopping Praça Nova, em Santa Maria.

Com distribuição em circuito comercial, o documentário levará ao grande público relatos e experiências vivenciados no ambiente escolar, ampliando o espaço de visibilidade e diálogo em torno de um tema ainda cercado por tabus: a primeira menstruação.

A ideia do filme nasceu durante uma festa de família. Na casa da mãe, a diretora Neli Mombelli ouviu tias e primas relembrarem a primeira menstruação. Mais tarde, percebeu que experiências atuais ainda carregam estigmas de 50 anos atrás. “Então, comecei a pensar em como fazer um filme sobre esse tema”, conta Neli.

Ao longo de um ano letivo, o longa acompanha as mudanças físicas e emocionais vividas por meninas entre 9 e 12 anos em uma escola pública da periferia de Santa Maria. Embora o momento exato deste marco biológico seja individual e imprevisível, a maioria delas já aguarda ansiosamente por isso. Daí a importância de trazer esse assunto ao público: desmistificar crenças, quebrar silêncios geracionais, e manifestar a autonomia da mulher ao ocupar seu espaço e construir sua trajetória, onde e como quiser.

​Para Neli, o documentário é uma ferramenta para abrir espaços de diálogo e troca. “Precisamos conversar sobre a puberdade sem medo, sem tabu, sem vergonha de falar a palavra menstruação”, defende. Segundo ela, quebrar estigmas também pode ajudar a evitar traumas e violências geradas pelo silenciamento.

A corroteirista Marilice Daronco, também pesquisadora do cinema santa-mariense, afirma que trabalhar com as histórias das meninas exigiu uma linguagem que respeitasse a complexidade de suas experiências, sem falar por elas de maneira artificial. Como é um documentário, eu usaria “experiências”, que mantém o vínculo com a realidade sem ficar tão direto:

Construído em conjunto por Neli e Inês Figueiró, o roteiro buscou retratar as experiências das personagens, marcadas por contradições, humor, fragilidades e coragem.

“Levar essas meninas para a tela também é uma forma de afirmar que as histórias que acontecem fora dos grandes centros merecem ocupar o cinema. E, a partir desse lugar específico, o filme pode conversar com o mundo”, diz.

A força feminina de “Quando a Gente Menina Cresce” também se faz presente nos bastidores. A força feminina de “Quando a Gente Menina Cresce” também se faz presente nos bastidores. Em uma equipe de 16 pessoas, 14 são mulheres. Essa composição foi essencial para criar um ambiente de confiança, sensibilidade e escuta durante as gravações e ampliar a presença de profissionais mulheres no audiovisual. Além disso, a estreia celebra a trajetória da TV OVO, coletivo que completou 30 anos de atuação em 2026. Ao longo de três décadas, a organização consolidou um trabalho dedicado à formação audiovisual e à produção de narrativas sobre as comunidades e a memória local.

Luciane Treulieb, diretora de produção, define a realização como “um processo longo e coletivo”. Segundo ela, acompanhar as meninas durante um longo período e de maneira tão próxima só foi possível graças ao acolhimento da Escola Municipal de Ensino Fundamental Sérgio Lopes, que abriu as portas para o projeto, além de uma rede de parcerias. Entre elas, estiveram profissionais da enfermagem que atuam no no bairro e estudantes de Dança da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), envolvidos em atividades ligadas aos temas do documentário.

Esse cuidado também orientou a fotografia do longa. Marcos Borba, diretor de fotografia, conta que o principal desafio foi criar confiança sem tornar a câmera invasiva. Nas ocasiões em que Neli conversava com as meninas sobre assuntos mais sensíveis, ele preparava o equipamento e saía da sala, deixando o espaço com uma equipe formada apenas por mulheres. “Em muitos momentos a gente usou uma teleobjetiva que conseguia me deixar longe, para eu poder ter uma liberdade para ir buscar os registros delas nas mais diversas coisas, mas sendo elas mesmo”, comenta.

A relação criada nas gravações também permaneceu para além delas. Luciane conta que o vínculo se formou aos poucos e com muita confiança, principalmente com as meninas e as mães. “Elas nunca foram só personagens que a gente encontrou, gravou e foi embora”, afirma. Mesmo sem a proximidade diária daquele período de gravações, a equipe continua acompanhando o desenvolvimento das participantes. “Ficou esse vínculo e um carinho muito grande por elas. A gente acompanha um pouco de longe, fica feliz com cada conquista e torce muito por elas e pelos caminhos que ainda vão construir.

Produzido pela TV OVO e distribuído pela OKNA Produções, a trajetória do documentário vem sendo marcada pelo reconhecimento em importantes festivais. No 53º Festival de Cinema de Gramado, o longa conquistou três distinções na Mostra Competitiva de Longas-Metragens Gaúchos: Melhor Filme, Prêmio do Júri Popular e Menção Honrosa. Em 2025, a produção integrou o Festivalzinho do 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Já em 2026, foi selecionada para a mostra oficial do Festival Internacional do Cine Pobre de Gibara e para o Panorama Rio Grande do Sul da 9ª Mostra Sesc de Cinema.

Para Marcos, a sala de cinema é uma conquista, mas não o destino final: “O que a gente quer mesmo é que ele vá para as escolas, vá para os ambientes da saúde e que ele possa gerar discussão sobre como trabalhar as questões do corpo da mulher”, afirma. A expectativa é que o filme também ajude meninos a compreender as mudanças do corpo e a desenvolver respeito em uma sociedade ainda marcada pelo machismo.

Neli lembra que a chegada ao circuito comercial só se tornou possível com o amparo de editais e políticas públicas para o cinema. “É uma alegria imensa poder ter um filme projetado nesse espaço em que as pessoas se encontram para suspender a correria da vida por pouco mais de uma hora e compartilhar da mesma experiência. Espero que o filme possa tocar, de diferentes formas, quem for assistir.

Então, quando as luzes da sala se apagarem, o que será projetado não é somente um filme sobre adolescência. Será o retrato de meninas que encontram coragem para crescer, compreender o próprio corpo e descobrir seu lugar no mundo.

Texto: Maria Eduarda Rossato / estagiária TV OVO

Imagens: Divulgação TV OVO

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