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Cultura e luta indígena no Narrativas em Movimento


Vincent percorre aldeias do país há mais de 30 anos trabalhando com formação audiovisual. Foto Lívia Teixeira

A questão indígena voltou aos noticiários com força neste ano, no entanto, os espaços midiáticos mostram apenas um lado dessa questão e raramente é o lado mais vulnerável. Discutir sobre como o uso do audiovisual fortalece a luta e ajuda a preservar a cultura dos povos indígenas do Brasil foi o objetivo do Narrativas em Movimento  realizado no último dia 19. Com o tema “Memória e Territórios no Audiovisual”, o colóquio trouxe o documentarista e indigenista Vincent Carelli.

Ele é idealizador do Vídeo Nas Aldeias, projeto que está há mais de 30 anos ajudando na formação de cineastas e cinegrafistas indígenas. Além da formação, o projeto busca fortalecer a identidade dos povos indígenas, registrando seus costumes e tradições. Entre o público estavam representantes das aldeias Guarani e Kaingang de Santa Maria. Para eles, essa experiência também foi enriquecedora, pois puderam conhecer a realidade de outras comunidades indígenas pelo país, como relatou Luís da aldeia Kaingang em sua fala.

Durante o encontro, a questão do audiovisual como ferramenta de preservação da memória dos povos indígenas foi bastante abordada, já que segundo Vincent, as comunidades indígenas ficam bastante decepcionadas com a forma que são retratadas por terceiros, por isso estão sempre dispostos a colaborar nos projetos onde elas mesmas podem contar suas histórias, porque é outro olhar. “Acredito que a questão do audiovisual tem esse poder mais sensorial. A gente já tem essa sensibilidade, mas ao ver os vídeos que ele passou sentimos mais impacto”, afirma Anna Christina Pimenta, estudante de relações públicas da UFSM.

Sobre os aprendizados do colóquio, Maria Eduarda Righetto, estudante de Publicidade e Propaganda da UFSM diz que “olhamos para os problemas da nossa realidade sem nos darmos conta que a realidade do outro faz parte da nossa. […] Temos que nos preocupar com a sobrevivência dos povos indígenas que estão tentando manter vivo a si mesmos e a sua cultura”. Também estudante de Publicidade e Propaganda da UFSM, Amanda da Cas, comenta: “Acho que é uma oportunidade de levarmos esse conhecimento para as pessoas que não puderam estar aqui… a grande importância foi ter recebido todo o impacto dessa discussão e tentar levar para outros espaços, tanto para nossa família quanto para a área da comunicação, pois são poucos os veículos que trazem esse tipo de
informação”.

De todos os aprendizados que este colóquio trouxe, talvez o mais importante tenha sido o de que a questão indígena precisa ser debatida em todas as esferas da sociedade, pois a união dos brasileiros é a arma mais eficaz para assegurar a defesa e cumprimento dos direitos indígenas. E isso também significa preservar nossas florestas que têm importância fundamental na manutenção de um planeta habitável.

 

Em tempo: audiovisuais indígenas

 

Um dia antes do colóquio, houve a exibição de “Martírio”, documentário dirigido por Vincent Carelli junto com Ernesto de Carvalho e Tatiana Almeida, que retrata o genocídio dos índios guarani-kaiowás. O filme foi eleito o melhor longa-metragem nacional de 2017 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) entre outros prêmios em diversos festivais. Sobre “Martírio”, William Boéssio, pós-graduando em jornalismo da UFSM, diz: “Vim para ver como os elementos técnicos da gravação seriam executados”. Outro ponto que o interessou foi sobre como o trabalho seria uma forma de os povos indígenas mostrassem a sua realidade para se defender. Apesar de já conhecer a causa indígena, ele não conhecia as especificidades desses povos. Para William, esse trabalho “conseguiu contar muito bem as diversas realidades, amarrá-las e fazer uma bela história”. Para quem quiser assistir, o documentário está disponível no canal do Vídeo das Aldeias no Vimeo para acesso on demand
Já na abertura do colóquio, foi exibido o vídeo “MBYA Arandu |Saber Guarani”, vídeo produzido pelos jovens guaranis da aldeia Tekoa Guaviraty Porã, de Santa Maria, durante oficina audiovisual da TV OVO. O vídeo fala sobre o respeito, cuidado e a relação sagrada que o povo guarani têm com a natureza.

Por Bernardo S. Silva

 


Documentário busca discutir presença indígena em Santa Maria


Gabriel faz exercícios de enquadramentos na aldeia Guarani. Foto de Tayná Lopes

Neste ano, o nosso projeto Por onde passa a memória da cidade trabalha na construção de um documentário que busca discutir a presença indígena em Santa Maria. A ideia inicial da produção é abordar a formação e origem de Santa Maria, intercalando a versão histórica e a lendária, ambas apresentando os indígenas como parte da história. Junto de entrevistas com membros de comunidades indígenas, antropólogos, sociólogos e historiadores iremos construir uma narrativa que busque documentar a memória destes povos, sempre tão invisibilizados.

Para o desenvolvimento do projeto estão sendo realizadas pesquisas históricas e conversas com diversas fontes, que conheçam a história e/ou tenham relação com ela. Está em curso um levantamento de dados, fontes, registros, documentos e imagens, para então iniciarmos as diárias de gravação.

Foi a partir da pesquisa que visitamos as aldeias indígenas Guarani e Kaingang de Santa Maria e, desde meados de agosto estamos realizando oficinas de formação audiovisual para os jovens da aldeia Guarani, que tem entre 13 e 20 anos.  Em outubro devemos ir fazer o mesmo na aldeia Kaingang. Embora o documentário tenha financiamento da Lei de Incentivo à Cultura de Santa Maria, LIC/SM, as oficinas são uma atividade paralela que estamos fazendo, com nossos próprios recursos, porque não queremos falar da presença indígena pelo nosso olhar, queremos que eles falem de si a partir do seu próprio olhar. Por isso, aos poucos, buscamos trocar conhecimentos e instrumentalizá-los para que possam registrar suas próprias histórias e sua cultura.

Por Tayná Lopes