{"id":537,"date":"2017-09-20T08:30:39","date_gmt":"2017-09-20T11:30:39","guid":{"rendered":"http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/?p=537"},"modified":"2024-09-09T18:54:48","modified_gmt":"2024-09-09T21:54:48","slug":"o-bom-o-ruim-e-o-necessario-a-se-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvovo.org\/portal\/cronicaria\/2017\/09\/20\/o-bom-o-ruim-e-o-necessario-a-se-fazer\/","title":{"rendered":"O bom, o ruim e o necess\u00e1rio a se fazer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Foi no aeroporto que conheci uma senhora chilena desbravando terras neozelandesas. Ela queria visitar a neta, pensou que mais tarde poderia ser muito tarde \u2013 acontece nas melhores fam\u00edlias \u2013 e embarcou sozinha, do Chile \u00e0 Nova Zel\u00e2ndia, em uma viagem de doze horas de avi\u00e3o. Seus olhos tristes n\u00e3o se comunicavam muito bem com o blazer amarelo da mo\u00e7a que a acompanhava. Fiquei observando\u2026 E quem diria? Os olhos tristes sempre t\u00eam boas hist\u00f3rias para contar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A mo\u00e7a-do-blazer-amarelo empenhava-se em explicar, em ingl\u00eas, onde a senhora-de-olhos-tristes deveria fazer o check-in, preencher a declara\u00e7\u00e3o e afins.\u00a0<em>\u201cEla vai para o Chile, certo?\u201d<\/em>, perguntei. A garota saltou:\u00a0<em>\u201cSIM! Voc\u00ea fala espanhol?\u201d<\/em>.\u00a0<em>\u201cSim. Quer dizer\u2026 N\u00e3o. Mas eu entendo! Vamos juntas!\u201d<\/em>, respondi. E l\u00e1 estava eu, acompanhada de uma desconhecida que, depois de ouvir um arriscado \u201c<em>no puedo hablar, pero te entiendo\u201d<\/em>, desabafou pelas 2 horas que antecederiam o embarque. Fizemos o check-in e precis\u00e1vamos andar. A senhora estava com uma perna machucada e a voz da minha m\u00e3e dizendo\u00a0<em>\u201cv\u00ea se n\u00e3o inventa de carregar a mala dos outros\u201d<\/em>\u00a0ecoava na minha alma.\u00a0<em>E se fosse uma traficante de drogas? E se os conflitos lingu\u00edsticos no meio do aeroporto fossem uma estrat\u00e9gia para comover e atrair netos com saudades de suas av\u00f3s? E se a perna machucada fosse a melhor desculpa para que EU carregasse a mala?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As preocupa\u00e7\u00f5es perderam a import\u00e2ncia \u00e0 medida que os detalhes me convenceram. Um passeio para uma ilha pr\u00f3xima era um dos planos da neta com a av\u00f3, mas, com o visto vencido, a jovem n\u00e3o conseguiu retornar \u00e0 Nova Zel\u00e2ndia. As duas ficaram presas na imigra\u00e7\u00e3o e a senhora precisou voltar sozinha para a casa da mulher-do-blazer, onde permaneceu sem ningu\u00e9m que pudesse entend\u00ea-la. Mais tarde, ainda no aeroporto, outra situa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel:\u00a0<em>\u201cComo assim est\u00e1 apitando o detector de metais? Ela j\u00e1 tirou tudo!\u201d,\u00a0<\/em>eu insisti. Quando deixaram-na passar, confessou que carregada um ter\u00e7o de ouro escondido no suti\u00e3. Eles poderiam at\u00e9 prend\u00ea-la, mas n\u00e3o conseguiriam se apropriar, nem por um segundo, de sua for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s somos a soma \u2013 nem sempre positiva \u2013 das pessoas que cruzam o nosso caminho. Eu gosto de pensar que s\u00e3o elas que me encontram, pois isso me faz crer que n\u00e3o h\u00e1 uma atitude precavida ou impulsiva, certa ou errada: h\u00e1 o necess\u00e1rio a se fazer. Todas as manh\u00e3s, quando eu atravesso a Rua Olavo Bilac, tor\u00e7o para reencontrar uma outra senhora \u2013 essa com olhos de esperan\u00e7a \u2013 que observa o neto enquanto ele atravessa a rua em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 escola.\u00a0<em>\u201cMas de que adianta se ela est\u00e1 a quase 10 metros de dist\u00e2ncia? \u00c9 imposs\u00edvel evitar um acidente\u201d.<\/em>\u00a0Eu, ao lado dele, na \u00fanica vez em que dividimos a cal\u00e7ada, decidi intervir: <em>\u201cEspera! Ainda n\u00e3o!\u201d (\u2026) \u201cT\u00e1, agora vamos!\u201d.<\/em> Atravessamos a rua correndo, como as crian\u00e7as e os atrasados (quem \u00e9 quem?) costumam atravessar. Isso n\u00e3o \u00e9 sobre intrometer-se, eu sei que a av\u00f3 n\u00e3o me culparia: permitir que o menino ande sozinho \u00e9 \u201co necess\u00e1rio a se fazer\u201d, mas a torcida sempre ser\u00e1 para que as pessoas que amamos encontrem alicerces no percurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um par de olhos de alegria esperou por mim no desembarque \u2013 a senhora chilena estava l\u00e1. H\u00e1 um encanto que insistentemente permeia o desconhecido: os melhores encontros da minha vida s\u00e3o os que eu n\u00e3o sei o nome dos encontrados, mas lembro-me do olhar. Em tempos como estes, o \u201couvir\u201d ensina que o \u201cfalar\u201d pode nos cegar. O\u00a0<em>Caminho do Meio<\/em>, descoberto por Buda, diz que a paz da mente, a sabedoria mais elevada e a ilumina\u00e7\u00e3o plena encontram quem rejeita os extremos: \u201cmeu cora\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se no caminho do meio\u201d. \u00c9 no\u00a0<em>entre<\/em>\u00a0que nos reconhecemos \u2013 mais como ouvintes do que como locutores, descobrindo que a vida, para al\u00e9m do \u201ce se?\u201d, \u00e9 sobre \u201co necess\u00e1rio a se fazer\u201d. \u00c9 preciso atravessar, seja para o outro lado do mundo ou para o outro lado da rua. E embora seja imposs\u00edvel evitar um acidente a dist\u00e2ncia, o otimismo de quem confia que a travessia ser\u00e1 pac\u00edfica \u00e9 o que eu, enfim, chamo de \u201cf\u00e9\u201d: uma for\u00e7a que ningu\u00e9m consegue se apropriar. Quando a empatia atinge o desconhecido \u2013\u00a0<em>\u201cno puedo hablar, pero te entiendo\u201d,\u00a0<\/em>a cegueira se perde no Caminho do Meio.<\/p>\n<p><em>se a humanidade falasse uma \u00fanica l\u00edngua<\/em><br \/>\n<em>para que serviriam os olhares?<\/em><br \/>\n<em>se a magia, o calor e o equil\u00edbrio estivessem na fala<\/em><br \/>\n<em>para que serviriam os malabares?<\/em><\/p>\n<p><em>se beb\u00eas e adultos<\/em><br \/>\n<em>falassem a mesma l\u00edngua<\/em><br \/>\n<em>para que serviria o choro?\u00a0<\/em><br \/>\n<em>se a paz \u00e9 o sil\u00eancio<\/em><br \/>\n<em>a guerra n\u00e3o \u00e9 o coro?<\/em><\/p>\n<p><em>se todos os mochileiros falassem a mesma l\u00edngua<\/em><br \/>\n<em>para que serviriam os gestos?<\/em><br \/>\n<em>estender a m\u00e3o pode significar:<\/em><br \/>\n<em>vem comigo<\/em><br \/>\n<em>voc\u00ea est\u00e1 bem?, ou,<\/em><br \/>\n<em>eu te empresto!<\/em><br \/>\n<em>mais do que voz ou escrita<\/em><br \/>\n<em>sorriso \u00e9 manifesto<\/em><br \/>\n<em>em todos os lugares do mundo<\/em><br \/>\n<em>!estenda a sua m\u00e3o!<\/em><br \/>\n<em>o resto \u00e9 s\u00f3 o resto&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>s\u00f3 aprendemos a sentir<\/em><br \/>\n<em>porque, em algum momento da vida,<\/em><\/p>\n<p><em>n\u00e3o conseguimos falar.<\/em><\/p>\n<p><em>como crian\u00e7as<\/em><br \/>\n<em>como doentes em uma cama de hospital<\/em><\/p>\n<p><em>ou,<\/em><br \/>\n<em>simplesmente,<\/em><\/p>\n<p><em>como estrangeiros.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; a fala \u00e9 o meio<\/em><br \/>\n<em>a vibra\u00e7\u00e3o: o passageiro &#8211;<\/em><\/p>\n<p><em>quero aprender a ver<\/em><br \/>\n<em>a sentir<\/em><br \/>\n<em>e a passar adiante<\/em><\/p>\n<p><em>quem cala \u00e9 o amor<\/em><br \/>\n<em>quem grita \u00e9 o amante<\/em><\/p>\n<p><em>sigo a minha rota<\/em><br \/>\n<em>vendo o amor como um instante<\/em><\/p>\n<p><em>existe uma l\u00edngua universal:<\/em><\/p>\n<p><em>um sorriso \u00e9 o bastante.<\/em><\/p>\n<p><em>pedra, ponte, travessia ou buraco<\/em><br \/>\n<em>melhor o barco que vira<\/em><br \/>\n<em>ao que permanece atado<\/em><\/p>\n<p><em>h\u00e1 mais vida e morte nas ruas<\/em><br \/>\n<em>do que em hospitais e cemit\u00e9rios<\/em><br \/>\n<em>o desconhecido n\u00e3o \u00e9 o perigo<\/em><br \/>\n<em>o desconhecido \u00e9 s\u00f3 o mist\u00e9rio<\/em><\/p>\n<p><em>o amor acontece<\/em><br \/>\n<em>aos que caminham sem mapa<\/em><br \/>\n<em>fa\u00e7am suas reconcilia\u00e7\u00f5es<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o esperem pelo Papa<\/em><\/p>\n<p><em>ciclos, trocas, energias e abra\u00e7os:<\/em><br \/>\n<em>deixe o seu melhor para algu\u00e9m<\/em><br \/>\n<em>s\u00f3 existe amor e verdade nos atos que n\u00e3o te conv\u00e9m<\/em><\/p>\n<p><em>o que h\u00e1 de mais vivo<\/em><br \/>\n<em>intenso<\/em><br \/>\n<em>e contradit\u00f3rio<\/em><br \/>\n<em>est\u00e1 na pr\u00f3xima esquina<\/em><\/p>\n<p><em>criar raiz \u00e9 fazer hist\u00f3ria<\/em><br \/>\n<em>viajar \u00e9 fazer rima.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Manuela Fantinel<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">(Cr\u00f4nica, poema e foto)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-791\" src=\"http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/som-cronicaria-300x69.png\" alt=\"Cronica falada\" width=\"265\" height=\"61\" \/><\/p>\n<div>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-537-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/21-MF-O-bom-o-ruim-e-o-necessario-a-se-fazer.mp3?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/21-MF-O-bom-o-ruim-e-o-necessario-a-se-fazer.mp3\">http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/21-MF-O-bom-o-ruim-e-o-necessario-a-se-fazer.mp3<\/a><\/audio>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no aeroporto que conheci uma senhora chilena desbravando terras neozelandesas. 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