{"id":41,"date":"2017-08-08T12:43:24","date_gmt":"2017-08-08T15:43:24","guid":{"rendered":"http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/?p=41"},"modified":"2024-09-09T19:01:57","modified_gmt":"2024-09-09T22:01:57","slug":"memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvovo.org\/portal\/cronicaria\/2017\/08\/08\/memoria\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria*"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Tenho uma caixa cheia de caderninhos. Sou rep\u00f3rter \u00e0 antiga, dos que ainda rabiscam num papel. N\u00e3o uso iPad e n\u00e3o tenho Twitter. Pensando bem, eu at\u00e9 poderia estar\u00a0<i>twittando<\/i>\u00a0num iPhone, porque minhas anota\u00e7\u00f5es certamente n\u00e3o t\u00eam mais do que 140 caracteres. \u00c0s vezes \u00e9 s\u00f3 uma palavra, e est\u00e1 ali apenas para ser o gatilho da mem\u00f3ria. No meio de uma confus\u00e3o, daquelas que a not\u00edcia adora, n\u00e3o h\u00e1 tempo para escrever muito. Voc\u00ea precisa \u00e9 amarrar bem o fato ao cord\u00e3o da lembran\u00e7a. Escrevo: \u201cfurdun\u00e7o\u201d, e basta para eu recordar o tamanho da encrenca. A\u00ed \u00e9 s\u00f3 descrever o que se passou, auxiliado pelo frescor do rec\u00e9m-acontecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nada de mais, n\u00e3o \u00e9 prod\u00edgio algum lembrar de algo t\u00e3o recente. Mas posso me gabar de entender um texto deslocado de seu tempo e de seu contexto. Garanto que consigo. Ali\u00e1s, nem texto \u00e9. Refiro-me a fragmentos de percep\u00e7\u00e3o: uma frase, uma palavra, um sinal rascunhado h\u00e1 mais de vinte anos. Minha proeza \u00e9 garimpar \u2013 em cadernetas amarelecidas e atafulhadas num ba\u00fa antigo \u2013 hist\u00f3rias inteiras, coerentes intelig\u00edveis. Como um arque\u00f3logo que recomp\u00f5e uma cidade perdida a partir de um \u00fanico tijolo encontrado por acaso, eu sou capaz de restaurar dias vividos no engatinhar de minha profiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O curioso \u00e9 que n\u00e3o lembro bem das reportagens, do que publiquei, do que escrevi \u00e0 \u00e9poca. Meus rabiscos me remetem mais \u00e0s circunst\u00e2ncias e \u00e0s pessoas do que ao fato em si. Dia desses, eu li: \u201croda d\u2019\u00e1gua\u201d, e imediatamente a mem\u00f3ria me trouxe o Rinc\u00e3o dos Minello, pequeno aldeamento rural, ali na subida da serra, onde ainda vejo uma junta de bois sulcando a terra e uma anci\u00e3o italiano bebericando a grapa feita em casa, enquanto a \u00e1gua do arroio impulsiona a roda que toca o moinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sobre o que era a reportagem? N\u00e3o sei, n\u00e3o tenho a m\u00ednima ideia. A lembran\u00e7a n\u00edtida \u00e9 dos rostos, dos olhos, dos movimentos da fam\u00edlia, das a\u00e7\u00f5es. Como estar\u00e1 hoje o Rinc\u00e3o dos Minello? Que ser\u00e1 que aconteceu durante esses vinte e poucos anos que se passaram? E para que serve esse tipo de lembran\u00e7a? Provavelmente para nada. Eu gostaria \u00e9 de lembrar onde foi que deixei os meus \u00f3culos. Enquanto eu me ponho louco tentando encontr\u00e1-los, xingo minha falta de mem\u00f3ria. Mentira. Eu me lambuzo de meu excesso de mem\u00f3ria para lembran\u00e7as que afagam a alma.<\/p>\n<p>*Cr\u00f4nica publicada no seu livro <em>Prov\u00edncias: cr\u00f4nicas da alma interiorana <\/em>(Editora Globo, 2013)<em>.\u00a0<\/em>Hoje, Marcelo j\u00e1 possui <em>Twitter<\/em>. As circunst\u00e2ncias do tempo mudam&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Marcelo Canellas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Foto de Renan Mattos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho uma caixa cheia de caderninhos. Sou rep\u00f3rter \u00e0 antiga, dos que ainda rabiscam num papel. N\u00e3o uso iPad e n\u00e3o tenho Twitter. 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