{"id":22,"date":"2017-08-08T11:28:58","date_gmt":"2017-08-08T14:28:58","guid":{"rendered":"http:\/\/tvovo.org\/cronicaria\/?p=22"},"modified":"2024-09-09T19:02:42","modified_gmt":"2024-09-09T22:02:42","slug":"sobre-mim-sobre-voce-e-sobre-ela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tvovo.org\/portal\/cronicaria\/2017\/08\/08\/sobre-mim-sobre-voce-e-sobre-ela\/","title":{"rendered":"Sobre mim, sobre voc\u00ea e sobre ela"},"content":{"rendered":"<p class=\"fontweight-semibold fontsize-larger u-text-center u-marginbottom-30\" style=\"text-align: justify\">Eu queria tocar a campainha do c\u00e9u. Voc\u00ea, na ponta dos p\u00e9s, abriria a porta. Talvez estivesse s\u00f3 de fraldas e p\u00e9s descal\u00e7os. Uma poss\u00edvel meleca no nariz. Eu tentaria pegar voc\u00ea no colo. Assustado, fugiria de mim. Arriscaria uma brincadeira \u2013 ou c\u00f3cegas, no auge do meu desespero \u2013 e voc\u00ea ia achar gra\u00e7a. Porque as crian\u00e7as acham gra\u00e7a! Ou n\u00e3o. Voc\u00ea j\u00e1 passou por tantas coisas que talvez n\u00e3o ache o mundo um lugar engra\u00e7ado ou gracioso. E a verdade \u00e9 que ele costuma n\u00e3o ser \u2013 o que me entristece \u00e9 que voc\u00ea, t\u00e3o nova, j\u00e1 tenha descoberto isso. Na \u00faltima ter\u00e7a-feira, 11 de julho, uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos perdeu a vida em Santa Maria. Ela foi v\u00edtima de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Os agressores? A m\u00e3e e o padrasto.<\/p>\n<div class=\"fontsize-base\">\n<p style=\"text-align: justify\">Algumas hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o boas de serem contadas ou agrad\u00e1veis de serem ouvidas. A televis\u00e3o nos mostra e, na hora do almo\u00e7o, ningu\u00e9m quer falar sobre o assunto. O \u00fanico coment\u00e1rio que costuma rolar \u00e9 um \u201ct\u00eam coisas que n\u00e3o d\u00e1 para acreditar, n\u00e9?\u201d. N\u00e3o d\u00e1 para acreditar e, ent\u00e3o, n\u00e3o acreditamos\u2026 E seguimos como se isso n\u00e3o fosse real \u2013 a vida precisa seguir, afinal. Escolhemos nos proteger (por covardia) e praticar a aceita\u00e7\u00e3o (e o ego\u00edsmo). Vira banalidade. Mas a\u00ed eu me lembro da minha afilhada de quatro anos, t\u00e3o inteligente, incr\u00edvel e \u201ccheia de gra\u00e7a\u201d, e entendo que a humanidade n\u00e3o falhou em sua capacidade de amar, mas na m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o do amor. E do dinheiro. E da educa\u00e7\u00e3o. E da comida. E de tudo que se prop\u00f4s a fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">N\u00f3s n\u00e3o temos o dom da empatia, o dom do amor ou o da compaix\u00e3o. O que temos, na verdade, \u00e9 o dom de desenvolvermos os melhores e os piores sentimentos do mundo \u2013 o que \u00e9 t\u00e3o encantador quanto, mas exige um pouco mais de n\u00f3s. A cr\u00f4nica, como uma m\u00e1gica, chega ao mundo para nos despertar e nos educar para essas emo\u00e7\u00f5es. Porque eu n\u00e3o escrevo fantasias, roteiros hollywoodianos ou hist\u00f3rias para dormir. Eu escrevo sobre mim, sobre voc\u00ea e sobre ela. As hist\u00f3rias que ningu\u00e9m quer ler, mas que todos torcem para que sejam escritas. Se a cr\u00f4nica \u00e9 sobre n\u00f3s, ela n\u00e3o \u00e9 apenas sobre a vida. Ela tamb\u00e9m \u00e9 sobre a morte. \u00c9 sobre tudo, ou sobretudo, no que est\u00e1 entre. Cr\u00f4nica \u00e9 sobre o choro e o riso \u2013 \u00e0s vezes, no mesmo texto -, como a vida \u00e9 \u2013 \u00e0s vezes, na mesma hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Se a cr\u00f4nica fosse alguma parte do ser humano, seria a pele. N\u00e3o adianta ignorar \u2013 fechar os olhos ou os ouvidos -, quando algo te corta, vai doer. Quando algo te arrepia, \u00e9 imposs\u00edvel evitar: vai arrepiar. A cr\u00f4nica n\u00e3o \u00e9 a televis\u00e3o e os seus olhos, n\u00e3o \u00e9 o r\u00e1dio e os seus ouvidos \u2013 e n\u00e3o \u00e9 melhor que nenhuma delas -, \u00e9 apenas o que h\u00e1 de mais animal em n\u00f3s. \u00c9 a reflex\u00e3o marginal. A considera\u00e7\u00e3o sobre os nossos acertos e fracassos \u2013 esses que grande parte da humanidade evita pensar. \u00c9, talvez cronicar seja um respiro de autoconhecimento e, por isso, de esperan\u00e7a. Algu\u00e9m precisa deixar registrado que, apesar dos romances encomendados e das fic\u00e7\u00f5es que enchem as salas de cinema, a realidade continua extraordin\u00e1ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dessa Terra, no fim, a gente s\u00f3 leva a meleca do nariz \u2013 uma semelhante a que a crian\u00e7a a qual foi tirada a gra\u00e7a teria se abrisse a porta para mim, e essa mesma que a minha afilhada, t\u00e3o amada, tamb\u00e9m tem. E isso \u00e9 importante que a gente nunca esque\u00e7a: o mundo gosta muito de apontar as nossas diferen\u00e7as (religiosas, culturais, ideol\u00f3gicas). \u00c9 o que d\u00e1 ibope. Mas contar as hist\u00f3rias do cotidiano \u00e9 uma oportunidade de mostrar que as nossas semelhan\u00e7as s\u00e3o muito maiores que as discord\u00e2ncias. Porque se voc\u00ea olha para o lado e n\u00e3o consegue ver o outro, aqui voc\u00ea vai ver o outro olhando para voc\u00ea \u2013 e isso vai te cortar a pele, se for preciso; ou arrepiar, se n\u00f3s tivermos alguma sorte. Quem l\u00ea sobre a realidade de quem est\u00e1 distante n\u00e3o corre o risco de achar que a vida \u00e9 pequena. Ela \u00e9 grande \u2013 nem sempre longa, nem sempre graciosa, mas sempre grande, como s\u00f3 um amontoado de palavras poderia ser.<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"page-title\" style=\"text-align: right\"><span class=\"vcard\">Manuela Mezomo Fantinel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Foto de Renan Mattos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu queria tocar a campainha do c\u00e9u. Voc\u00ea, na ponta dos p\u00e9s, abriria a porta. Talvez estivesse s\u00f3 de fraldas e p\u00e9s descal\u00e7os. Uma poss\u00edvel meleca no nariz. Eu tentaria pegar voc\u00ea no colo. Assustado, fugiria de mim. Arriscaria uma brincadeira \u2013 ou c\u00f3cegas, no auge do meu desespero \u2013 e voc\u00ea ia achar gra\u00e7a. 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