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A gravação se dá no caminho


Um dia a máxima foi “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Mas quando a tarefa de registrar os segmentos culturais de Santa Maria* surgiu, percebemos que – mais uma vez – não poderíamos seguir à risca o modelo de Glauber Rocha. O processo se dá de outra maneira. Alguns motivos de ordem prática nos limitam: a necessidade de um produto audiovisual de poucos minutos, o número de diárias para as gravações e o intuito de retratar os segmentos de uma maneira socialmente responsável. Seria preciso selecionar previamente as pessoas entrevistadas e avaliar de que maneira cada uma delas poderá contribuir com esse retrato inalcançável da realidade cultural da cidade. Algo distante da imprevisibilidade do estilo “câmera e ideia”.

Da pesquisa prévia ao boca a boca, chegamos a nomes que talvez pudessem nos ajudar e a partir da primeira conversa já foi possível traçar alguns caminhos. Durante a produção do episódio sobre Artesanato, por exemplo, cada contato levou a um nome diferente que, ao fim, teceu uma rede complexa (assim como é a realidade) de artesãos profissionais e de grupos que, por exemplo, praticam o artesanato sem depender dele exclusivamente como fonte de renda. Seria preciso, mais uma vez, escolher quem dali poderia contribuir com o episódio.

No encontro com a câmera, houve quem falasse de menos, intimidado, nervoso com a gravação, e também o que de tão tímido tentou encontrar um substituto por duas vezes sem sucesso, dando ao fim uma das melhores entrevistas realizadas. Houve quem dissesse exatamente aquilo que o diretor queria. Algumas vezes, o próprio diretor se perdeu, rígido nas perguntas previamente estabelecidas e desatento no diálogo necessário, quando a resposta para uma questão poderia vir na resposta da outra – o que não tem importância, pois é para isso que existem os recursos de edição e pós-produção. Houve também quem contasse longas histórias, num primeiro momento, desnecessárias, visto que não se encaixariam na proposta do episódio, mas que se revelariam como os longos raciocínios, às vezes, chegam a conclusões arrebatadoras, essas sim necessárias ao episódio.

O não dá pra deixar de pensar é como o encontro entre quem está atrás e em frente às câmeras traz elementos que, escapando aos roteiros, contribuem com ele.

Por William Boessio

Lenita - Foto Helena Moura

Lenita – Foto Helena Moura

Seu Aldo - Foto Luiz Vinicius

Seu Aldo – Foto Luiz Vinicius


Santa Maria além dos morros que vemos


Santa Maria não é formada apenas pelo centro, bairros e vilas que nos habituamos a ver e percorrer. Além da sede, a cidade possui outros nove distritos, cada um com as suas peculiaridades e histórias. Histórias essas que, desde 2014, tentamos contar em documentários inseridos no projeto Por Onde Passa a Memória da Cidade, criado em 2008.

O distrito da vez é São Valentim. Localizado na porção sudoeste do município, tem como característica a figura do carreteiro, importante trabalhador que utilizava a carreta de bois para transportar mercadorias pela região central e pelo Estado. Hoje o distrito, como é comum em todo o meio rural, e apesar da curta distância até o centro da cidade, lida com o êxodo dos jovens para o meio urbano. Mas há quem permaneça e saiba aproveitar o que a vida no interior tem a oferecer.

Das festas nas comunidades à lida no campo, os moradores vão formando a identidade do local. E nessa tentativa de registrar histórias que nos ajudem a conhecer um pouco mais a cidade que nos rodeia, vamos conhecendo pessoas. Pessoas, é delas, com elas e para elas que falamos quando fazemos um trabalho assim, de comunicação comunitária. Muitas vezes são pessoas comuns. E quantas coisas elas têm a nos contar.

É o exemplo de Dona Maria. Ela tinha um sonho, queria ter seguido os estudos. Mas quando criança teve de largar tudo e ajudar o pai no campo. Casada há quase 60 anos, aprendeu com o marido, Seu Arlindo, a lidar com ferro. Ele traz consigo as lembranças da vida de carreteiro e algumas cicatrizes das lidas como ferreiro. Retrato de um outro tempo, onde não tinha televisão, rádio ou luz, nem mesmo asfalto, coisas que aos poucos foram chegando à localidade. Já seu Odonelson, além de tirar o sustento de sua família da plantação, leva às gerações mais novas um pouco da história sob a qual o distrito e, consequentemente, a cidade foram forjados. Na escola da localidade, de tempos em tempos, mostra a carreta aos estudantes que não conhecem.

Muitas outras histórias foram contadas para as lentes atentas, inclusive sobre a formação do local, os lugares onde antes os carreteiros paravam, as dificuldades e alegrias de se viver no meio rural. Mas isso é papo para se conferir com o curta na tela. O documentário sobre São Valentim passa agora para a fase de edição, o projeto é uma realização da TV OVO e é financiado pela Lei de Incentivo à Cultura de Santa Maria.

Por Heitor Leal
Fotos de making of: Denise Copetti
Foto still: Alexsandro Pedrollo

Dona Maria e Seu Arlindo II

Depoimento de Dona Maria e Seu Arlindo

Dona Maria e Seu Arlindo I

Dona Maria e Seu Arlindo estão casados há 60 anos.

Gravações em São Valentim

Gravações em São Valentim. Heitor Leal na captação de som direto. Direção de Jaiana Garcia.


A cultura da cena


Os encontros, os movimentos, as conversas, as ideias fervilhando na cabeça. Quatro mochilas, alguns cabos, os cartões de memória e os carregadores nas tomadas. Ah, a rotina. Toda sua complexidade em três ou quatro atos ensaiados mentalmente numa agilidade duvidosa para se confrontar com todas as armadilhas que a rotina nos apresenta. Para cozinhar a gema da TV OVO, a receita é básica. Os ensinamentos das cabeças brancas do audiovisual e um maço de apaixonados pelo áudio e vídeo. Mistura que proporciona pratos da mais fina culinária. E é culinária local, todos os ingredientes vivem, transitam e contam histórias de Santa Maria.

Nas últimas semanas, a gema da TV OVO tem vivido a cultura da cena. Um dos pratos clássicos da casa. Um emaranhado de histórias e lugares que começa a ganhar  recortes, medidas e enquadramentos que dão vida aos roteiros. O resultado são registros que retratam o que a cultura da cidade grita por meio de uma variedade de rostos, manifestações e relatos. A cultura vira a cena. Tudo se entrelaça e se alimenta.

Nessa rotina de sair da casca, ouvir e captar o que os entrevistados têm a contribuir é que nos deparamos com os contrastes. O desafio é conseguir construir um roteiro que busque mostrar a variedade e a complexidade do mundo das artes visuais, suas raízes e ramificações aqui em Santa Maria. Dessa forma, é que o contraste de mundos e vivências nos abraça e nos estimula para produzir o Cena Cultural – Artes Visuais.

Os primeiros personagens que se somaram à receita já nos ofereceram o abraço dos contra-mundos. Tendo como plano de fundo a rodoviária e seu universo de cores e formas, o Antônio, ou melhor, o Braza, trouxe na bagagem inúmeras histórias e aventuras nos campos das artes, que ganharam vida em painéis e quadrinhos. Mas o tempero especial desse artista visual da cidade é sua variedade de expressões que destilam uma mistura de cores e personagens pelas ruas de várias cidades. Toda a efervescência e agitação de uma mente inquieta em interação com o tempo frenético em que vivemos.

O segundo personagem, uma personalidade da cidade – Guido Isaia. Empresário e um apaixonado pelo registro. Detentor de um acervo de câmeras e fotografias que deixa boquiaberto qualquer apaixonado pela arte. Os mais de 50 anos tendo a fotografia como hobbie renderam para ele muitas histórias e aprendizados pelos obturadores e pela técnica fotográfica. Da sacola cheia de lâmpadas para acionar o flash aos banhos dos reveladores de fotografias do estúdio no fundo de quintal, tudo isso faz parte do repertório de uma memória viva e atenta.

Ah, a rotina, o contraste, os personagens, as histórias… Mas, não dá pra esquecer do ISO, do balanço de branco, da velocidade e abertura, o aúdio, os ruídos e as  quatro mochilas de equipamentos. Toda sua complexidade em alguns atos ensaiados mentalmente numa agilidade duvidosa. Essa é a nossa cultura da cena. O movimento da gema.

Por Renan Mattos e Julia Machado

Gravação do Cena Cultural - Artes Visuais com Braziliano

Gravação do Cena Cultural – Artes Visuais com Braziliano


Boca do Monte nas redes


O documentário Boca do Monte, que foi lançado no primeiro semestre deste ano, está disponível nas redes sociais. A produção faz parte do projeto Por Onde Passa a Memória da Cidade e é financiada pela Lei de Incentivo à Cultura de Santa Maria (Lic/SM). O projeto registra as histórias e personagens dos distritos do interior de Santa Maria – RS, entre eles, está Boca do Monte, ou Caa Yura, na língua Tupi-Guarani. O documentário, que foi captado durante o ano passado, conta as histórias da terra que deu origem à Santa Maria, as mudanças nas paisagens trazidas pela trilhos de trem e sobre o cotidiano dos moradores do distrito.

Em 24 minutos, você vai ver e conhecer algumas histórias e personagens do Caa Yura.

Sinopse
Boca do Monte ou Caa Yura, em Tupi-Guarani, é a origem de Santa Maria. Terra de indígenas, lugar de passagem em direção às Missões, campo de litígio entre os impérios português e espanhol. Mais tarde, caminho do progresso pelos trilhos do trem e de quem viajava na maria fumaça e depois nas locomotivas à vapor. Mas não tardaria para que chegassem as taperas. Hoje, chácaras e casas de fim de semana, aos poucos, vão reconfigurando as transformações que o tempo deixa ao passar em direção para o amanhã.
Direção de Neli Mombelli

Por Renan Mattos

Captação de áudio no interior da sede de Boca do Monte

Captação de áudio no interior da sede de Boca do Monte


Com cultura e debate, TV OVO se despede do projeto “Narrativas em Movimento”


Na quarta-feira, 24 de agosto, às 19h, o Auditório João Miguel de Souza, na CESMA, foi sede do terceiro colóquio e último evento do projeto “Narrativas em Movimento”, realizado pela TV OVO com financiamento da Lei de Incentivo à Cultura de Santa Maria. O “Colóquio de comunicação e cultura: política cultural e desentendimento” teve apoio do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática da UFSM, do curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano e do Observatório Missioneiro de Atividades Criativas e Culturais (Omicult).

O doutor em Comunicação e Culturas Contemporâneas e professor de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará, Alexandre Barbalho, foi o convidado pela TV OVO para refletir e debater sobre a cultura e a política cultural na contemporaneidade. A conversa contou com a mediação do Prof. Dr. Cássio dos Santos Tomain (POSCOM-UFSM) e do integrante da TV OVO Marcos Borba. Mais de cem pessoas de diversos âmbitos culturais e estudantis participaram do evento, que suscitou a reflexão sobre os papéis exercidos pelas movimentações culturais, abrangendo as áreas econômicas e sociais.

Com base no pensamento do filósofo Jaques Rancière, Barbalho criticou a vampirização e a cafetinagem da cultura pela lógica do mercado e do social. O professor também ressaltou que o interesse em uma política cultural pede que sejam deslocados os padrões e sejam vistas as manifestações e os movimentos culturais que antes não eram vistos. A temática e seus gargalos no envolvimento dos diferentes movimentos culturais existentes e atuantes no Brasil, motivou a jornalista Marina Martinuzzi, 24 anos, a presenciar o discussão para esclarecer seus pensamentos frente ao tema: “Eu acredito que esse debate sobre desentendimento fala muito sobre as inquietações atuais. O Alexandre trouxe pontos da questão estrutural da cultura, como ela precisa ser entendida e como precisam ser preservados os movimentos de resistência”. Marina atua em alguns coletivos da cidade e valoriza a ideia de que os jovens estão ocupando a política por vias cada vez mais democráticas. “Vejo na fala dele que, enquanto que os movimentos passados traziam o conceito de igualdade, hoje o grande conceito é o legado da representatividade; a igualdade na diferença”, observa a jornalista.

Os eventos que integraram o projeto Narrativas em Movimento, fizeram parte das atividades dos 20 anos da TV OVO, completados em maio deste ano. Os três colóquios realizados visaram fomentar a discussão sobre temas diversos que fazem parte do cotidiano. Por meio da Lei de Incentivo à Cultura de Santa Maria, a TV OVO se propôs a trazer nomes que atuam principalmente nas áreas da comunicação social e audiovisual.

Confira abaixo a entrevista que Barbalho concedeu a TV OVO, falando sobre os temas abordados durante o colóquio. Além das temáticas que compuseram sua fala, o pensador comentou sobre o poder do audiovisual como elemento fundamental para a afirmação e disseminação cultural.

https://www.youtube.com/watch?v=pApO_3f5G4o

Texto: Acadêmica de Jornalismo Manuela Fantinel

Fotos: Renan Mattos

Colóquio Comunicação e Cultura