Notícias

Um dia para cantar os 20 anos e o fazer cultural


Se a TV OVO completou 20 anos na quinta-feira, 12 de maio de 2016, vale lembrar que Paulo Tavares, quem lançou nossa pedra fundamental sem nem imaginar, esteve de aniversário na terça-feira, dia 10 de maio, e Marcos Borba, outro nome cuja história se confunde com a da TV, assoprava suas velinhas no dia 14 de maio. Assim, com tantos aniversários, não havia como não comemorar em grande estilo: um palco aberto com a rua e os morros ao fundo emolduraram as apresentações de Guantánamo Groove, Pirisca Grecco e Pegada Torta, bandas que se formaram em Santa Maria para produzir cada uma a sua música, e que aceitaram subir ao palco para um público de cerca de 500 pessoas em frente ao Sobrado, todo iluminado pelo videomapping dos também santa-marienses  Fernando Krum e Fernando Codevilla.

O palco e a fachada do casarão também serviram para protestos contra o fim do Ministério da Cultura com as hashtags #ficaMinc e #lutopelacultura. A medida tomada no primeiro dia do governo interino de Michel Temer (PMDB), uma sexta-feira 13, foi considerada por aqueles que atuam no cenário cultural brasileiro como um retrocesso, tendo sido sustentada por um simples argumento de “corte de gastos”. Criado ainda no governo Sarney, O Ministério da Cultura somente teve caráter de secretaria nos anos de Fernando Collor, retirando do segmento cultural sua autonomia de gestão e o transformando em mera secretaria do Ministério da Educação.

Após a mobilização dos artistas, produtores culturais e movimentos sociais – e visando reduzir as críticas sobre seu governo – Temer voltou atrás e recriou o Ministério da Cultura no dia 21 de maio, após ter nomeado Marcelo Carneiro para secretário de cultura, passando então Marcelo ao cargo de ministro. Resta agora saber como será a gestão do Ministério.

Por William Boessio
Fotografia de Neli Mombelli


O poder de agendamento dos grandes veículos


Na tarde do dia 12 de maio, às 16h, iniciou-se o Colóquio 100/20: Jornalismo na era da internet, realizado no Theatro Treze de Maio. O tema da primeira mesa foi Novas plataformas, debate público e agendamento na era da internet, com a mediação de Marcelo Canellas e participações de Lúcio Flávio Pinto, Francisco Karam e Moisés Mendes.

O jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto não pode estar presente, mas participou por intermédio de um vídeo depoimento que abriu o debate. Nele, falou a respeito de sua trajetória profissional, sobre a época da Ditadura Militar, quando trabalhou simultaneamente na grande imprensa (Jornal Estado de São Paulo) e na imprensa alternativa (Jornal Opinião). Comentou sobre como ele, no Estadão, mesmo com toda a censura da ditadura, conseguiu fazer reportagens especiais sobre a Amazônia. Também falou a respeito do assassinato do ex-deputado e ativista político Paulo Fonteles, fato que o motivou a criar o seu próprio veículo, o Jornal Pessoal.

Lúcio Flávio acreditava que, com o fim da ditadura, não haveria motivo para ainda existir mídia alternativa, afinal, não existia mais a censura. Quando criou o Jornal Pessoal, também pensou que seria somente uma única edição, pois a imprensa era livre pra escrever o que bem quisesse. Entretanto, logo viu que não era bem isso: apesar de não sofrer com a censura política como outrora, a grande mídia ainda era e é escrava de seus anunciantes e comparsas políticos. Foi por isso que o Jornal Pessoal continua até hoje. Como ele é feito apenas por uma pessoa e não possui anunciantes, Lúcio Flávio Pinto pode escrever nele o que quiser, falar mal ou bem de quem entender. O que sai no Jornal Pessoal não sai na grande mídia, que se auto-proíbe de publicar diversas reportagens em benefício do seu lucro.

Dando prosseguimento ao evento, Canellas chamou ao palco Moisés Mendes, ex-colunista da Zero Hora, e Francisco Karam, professor especialista em ética no jornalismo. Moisés abriu sua fala já remetendo ao acontecimento simbólico do dia: o golpe contra o governo de Dilma Rousseff, assunto que acabaria por permear tanto o debate da tarde quanto o da noite. Relacionando-o com a temática do agendamento, o jornalista colocou em questão a capacidade que a imprensa terá de fazer uma avaliação a respeito do seu papel durante o impeachment daqui a alguns anos, diante da produção precária de informação em meio à crise política. Esta necessidade de auto-avaliação foi algo apontado pelos dois convidados. Durante toda a crise, a grande mídia se mostrou favorável ao impeachment da presidenta Dilma, atacando-a de forma grotesca e machista, inclusive, ponderaram os convidados.

Sobre os caminhos da profissão, Moisés Mendes decretou: “Não podemos ser românticos ao achar que se pode enfrentar a mídia tradicional sem encarar o jornalismo como negócio rentável”. Ele lembrou que as vagas de emprego no jornalismo tradicional estão ficando raras, e que as demissões são frequentes, então, “os jovens jornalistas terão que ir atrás de outros meios de se fazer jornalismo para sobreviver”. Mendes finalizou a sua fala cobrando o posicionamento dos profissionais da área diante das mais variadas questões, de forma que se tornem verdadeiros ativistas das causas humanistas e lançou: “Jornalista reacionário não tem futuro no mundo”.

Nove questionamentos foram abordados pelo professor Francisco Karam em sua fala. As perguntas rodaram em volta de temas políticos, como o jornalismo está presente nesse temas e como as novas plataformas podem vir a fazer um jornalismo de qualidade. Ao perguntar-se se o agendamento feito pela imprensa tradicional havia sofrido mudança e talvez enfraquecido com o jornalismo alternativo. “O agendamento da imprensa hegemônica é forte. O jornalismo alternativo ainda está muito longe de competir diretamente com isso”, diz o professor,  destacando a fraqueza da imprensa alternativa perante o poder dos meio tradicionais. Para ele, quem dita o que é notícia ou não ainda é a grande mídia.

Karam fez duras críticas ao modo como é produzido conteúdo na web, apontando necessidade de aprofundamento dos assuntos e que um grande desafio é convencer o público do porquê se manter informado, do porquê de ir atrás da notícias. Outro ponto discutido foi  a existência de um espaço para o debate sincero, na qual o professor coloca: “Não acho que exista um debate sincero. Na mídia hegemônica, o cinismo e o narcisismo se sobrepuseram ao debate”. O professor ressaltou a importância de se investir nas novas plataformas e de se investir em um bom jornalismo, aprofundado e pautado nos interesses públicos.

Após as colocações dos convidados, abriu-se espaço para perguntas do público. Foram levantados questionamentos a respeito de como fazer jornalismo na internet e de como o jornalismo pode se auto-avaliar nas questões a respeito do impeachment da presidenta Dilma. Teve, inclusive, uma pergunta de Moisés Mendes para o mediador da mesa, Marcelo Canellas, sobre como fica as grandes reportagens de humanidades no meio de toda essa discussão política. Canellas respondeu colocando que o valor da grande reportagem nunca foi tão imprescindível no jornalismo brasileiro. Contou um pouco também sobre a luta pelo agendamento nas reuniões de pauta para o programa que trabalha, expondo que é preciso estudar e estar municiado para defender as suas pautas, saber lutar por elas, para elas então fazerem parte da agenda nacional.

Por Nicoli Saft e Matheus Oliveira

Foto Neli Mombelli

agendamento


A aposta na grande reportagem em tempos de internet


Eram 19h de uma noite de quinta-feira. Mas sem dúvida, não uma quinta qualquer. Dia 12 de maio: aniversário da TV OVO e dia de discussão sobre jornalismo. O Theatro Treze de Maio estava lotado e a segunda mesa do Colóquio 100/20 estava pronta para se formar. Sentados sob as luzes do palco do Treze, ao lado do mediador Marcelo Canellas, estavam os jornalistas Andrea Dip, Mauri König e Humberto Trezzi.

Conhecidos por suas diferentes trajetórias, eles vieram à Santa Maria conversar com estudantes, professores, jornalistas, pesquisadores e interessados sobre o passado e o futuro do jornalismo. E por falar em futuro, o clima era de esperança. Trezzi, jornalista da Zero Hora, deu início à conversa e foi responsável pela primeira injeção de otimismo: “Eu acho que estamos vivenciando o melhor momento para fazer grandes reportagens no jornalismo, inclusive nos veículos impressos”, apostou ele.

O debate se deteve à produção de grandes reportagens investigativas na era da volatilidade da internet. Será tão quimérico a busca pela perenidade em uma época onde as notícias se tornam velhas tão rapidamente? König, jornalista independente, não acredita ser. Segundo ele, o jornalismo voltado para as grandes reportagens vem se fortalecendo no país e a internet é catalisadora dessa produção. “Precisamos pensar em todo o potencial que a internet nos proporciona e como ele vem sendo utilizado”, arrebatou o premiado jornalista.

Outra grande questão apontada por Mauri foi o financiamento dessas matérias. Quando matérias investigativas são desvinculadas de um meio de comunicação tradicional, abre-se portas para que os profissionais trabalhem em uma única reportagem durante um vasto período de tempo, contudo, é necessário recursos para a produção da reportagem. Já, quando uma ela está na pauta das grandes redações, a reportagem corre o risco de se misturar à demanda comum de trabalho e a maioria dos jornalistas acaba não tendo a possibilidade de dedicação integral à investigação.

Andrea abordou a experiência na Agência Pública de Jornalismo Investigativo e as possibilidades deste financiamento. A Agência é apoiada por fundações internacionais e também se utiliza de financiamentos coletivos, os crowdfunding. A Pública também age como moderadora de oportunidades e oferece bolsas para jovens jornalistas que podem inscrever suas pautas e ganharem o incentivo para executá-las. “Acho que o sonho de todo o jornalista é ser apoiado pelo público que lê as reportagens”, afirmou Andrea.

Para quem pensa que a internet deve trazer sempre notícias ínfimas e fragmentadas com a justificativa de que os internautas não lêem conteúdos extensos, Trezzi e Andrea refutaram essa teoria. “As pessoas lêem grandes reportagens, sim. Os leitores pedem por elas e quando elas saem, têm grande repercussão na maioria das vezes”, comentou Trezzi, que trabalha com o impresso. Cabe aos jornalistas então, entender a lógica dessa produção para diversos meios, como a internet que nos proporciona a utilização de uma linguagem rica, com possibilidades multimídias, e uma apropriação rápida. Sobre essa questão, Andrea salientou o poder de replicação que a internet possui – o copyleft que a Agência Pública procura disseminar em suas matérias que são em plataforma online.

A aposta foi unânime: o jornalismo independente vem se fortalecendo no Brasil, nos últimos anos, e muito dessa visibilidade se dá por meio da rede. A produção das chamadas grandes reportagens nos dá a possibilidade de deixar de nadar no raso das hard news. Nos possibilita estudo e compreensão de assuntos de interesse público que merecem um olhar mais apurado e cuidadoso. Um tipo de jornalismo engenhoso, perspicaz e corajoso. Corajoso para quem aposta. “É um jornalismo que nos permite amarrar todas as pontas da informação”, conclui Andrea Dip.

Por Julia Machado e Helena Moura 

Foto Renan Mattos
Colóquio grande reportagem


20 anos de TV OVO e um viveiro de sonhos


Na última quinta, 12/05, completamos 20 anos de atuação em Santa Maria. Neste dia, recebemos o maior presente que nós e a cidade poderíamos ganhar: uma casa para abrigar todos os nossos sonhos e projetos. O jornalista e santa-mariense Marcelo Canellas fez a doação do imóvel que fica na rua Floriano Peixoto esquina com a Ernesto Becker para que se torne nossa responsabilidade e para que abrigue os sonhos nossos, os dele e os da cidade.

É neste endereço, onde está uma casa em ruínas, que nascerá mais um espaço para as manifestações artísticas e educativas da cidade: o Sobrado Centro Cultural. Abaixo, está a foto da maquete do que deverá ser o futuro do edifício, arquitetado em parceria com a engenhosidade de Clarissa Pereira e Daniel Pereyron. O local será restaurado e deverá abrigar espaço para exposições, peças teatrais, recitais de música, cineclube, museu da imagem e do som, biblioteca do audiovisual, oficinas de produção audiovisual, escola de comunicação comunitária e estúdios de som, TV e cinema.

Na solenidade de doação, o idealizador da TV OVO, Paulo Tavares, fez um texto em nome de toda nossa equipe em gratidão ao imensurável gesto de Marcelo.

“Muitas coisas imaginadas, muitas vivências, experiências, planos e realizações. Enfim, muitas coisas a dizer! Mas o que dizer que já não tenha sido dito? O que dizer sem ser repetitivo e enfadonho? Creio que seria mais fácil mostrar. Até porque falar é difícil! Mas os desafios foram criados para serem enfrentados. No momento, não há como refutar. O jeito é respirar fundo e encarar. Sendo assim, vou me limitar a falar de sonhos!

Alguém já disse que “o que move o mundo não são as respostas e sim as perguntas.” Dou-me a liberdade de parafrasear: O que faz as coisas tornarem-se reais não são as ações, mas são os sonhos! Porque sem sonho, sem imaginário, sem desejo, nada se torna palpável e real. São os sonhos que dão cor, leveza, sentido e beleza à vida! São eles que nos fazem acordar e levantar todos os dias. Nos fazem ter força, energia e iniciativa de agir e criar e até mesmo de conquistá-los.

E foi assim que, há 20 anos, na Vila Caramelo, surgiu uma ideia. Nasceu um sonho: colocar nas mãos de adolescentes e jovens da periferia de Santa Maria uma câmera de vídeo. O que eles fariam com ela? Talvez um vídeo! Um programa comunitário de TV. Talvez tudo não passasse de uma ideia maluca, uma ilusão, um devaneio… Mas assim se plantou um sonho, como uma semente. E essa semente simples, única, foi regada pelo apoio e incentivo de pessoas e organizações das comunidades do entorno e de tantas outras pessoas e instituições. E o que era um sonho, aos poucos, se transformou em um viveiro. Um viveiro de sonhos.

Plantar e regar uma semente uma vez é fácil, mas não garante a colheita. Mais do que isso: cada semente necessita de cultivo, de cuidado, de zelo. Para cada intempérie é necessário um novo médodo, uma nova técnica, um novo aprendizado.

Às vezes a terra está árida, o sol é escaldante e a chuva não vem. Em outras, a chuva vem em demasia, vira tempestade, lava a terra e pode matar a semente. Mas a teimosia e persistência do plantador aliada ao desejo, ao sonho e à determinação da semente de superar obstáculos, eclodir, virar broto, romper a terra, crescer, faz com que ela se transforme em flor e em fruto.

E sendo flor, ou sendo fruto, a própria semente se reconhece, se preserva, se redescobre e se renova. E continuando o ciclo, o que foi semente solitária em um viveiro de sonho, cresce, se fortalece e se transforma em árvore frondosa.

Pessoas devem ser meio ávores e meio sementes. Têm que ter sonhos e ser sonhos. Cada um deve viver com raízes firmes plantadas em seu chão, mas também precisa ser semente. Estar livre para voar, para viajar pelo mundo, flutuar nos braços do conhecimento. Desfraldar, respirar, vivenciar e colher histórias. Selecionar novas experiência, misturar-se com novas sementes e cultivar outros sonhos. E quando o vento soprar, trazendo-a novamente ao seu chão, possa semear-se transformando e renovando os seus próprios sonhos.

A TV OVO é assim! E consequentemente cada um que faz parte de nossa equipe também o é! E deve continuar sendo. Não podemos ser diferentes. Temos que ser assim. Temos que ser árvores com raiz, caule, folha, flor, fruto. E ser semente que, impulsionada pelo vento, fecunda o quintal de Santa Maria.

E assim, quero encerrar, dizendo muito, mais muito obrigado, mesmo, Marcelo Canellas por ser o nosso vento.

E mais uma coisa: que se edifique o nosso viveiro de sonhos!”

Maquete Sobrado