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Memorial às vítimas da Kiss tem projeto escolhido


No início do mês de abril, foi divulgado o resultado do concurso para a escolha de projeto arquitetônico para o memorial para ser construído onde hoje está situado o prédio da Boate Kiss, em homenagem às 242 vidas que se foram naquele 27 de janeiro de 2013. A proposta vencedora foi a do arquiteto Felipe Motta, de São Paulo, cuja ideia traz um espaço multiuso e um jardim circular de flores perenes.

A concepção de construir um memorial surgiu a partir de um sentimento nobre: o amor. O amor por todos aqueles que se foram e também por quem ficou (são mais de 600 sobreviventes), além do desejo de preencher a lacuna da tristeza e da indiferença, conforme consta na proposta do concurso do memorial, de abraçar um espaço que até então é feito de dor. Assim, o priemiro passo foi fazer um financimento coletivo via internet para anguariar fundos junto à população que subsidiasse a execução do Concurso Público Nacional de Arquitetura para o Memorial à Vida.

Segundo Tiago Holzmam, coordenador e arquiteto do concurso, este foi um dos maiores concursos públicos de arquitetura já realizados no Brasil. Rafael Passos, presidente do IAB-RS, ressaltou, em seu discurso de agradecimento, que o processo foi rico, intenso e com muito sentimento envolvido, e que finalmente chegou a hora da arquitetura dar a sua contribuição para tentar diminuir a dor causada pela tragédia. “O memorial tem o objetivo e a responsabilidade de ressignificar aquela área física, para que não se repita”, afirmou o presidente da IAB-RS.

Foram cinco dias de trabalho para analisar as 121 propostas entregues para a comissão do projeto. O julgamento foi realizado em sessões sigilosas de 5 a 10 de abril , em uma sala no Sindicato dos Bancários de Santa Maria. A comissão julgadora foi composta inteiramente por arquitetos e urbanitas e elencou as cinco melhores propostas. Coube, então, à comissão de classificação, formada por representantes dos familiares das vítimas e da comunidade de Santa Maria, escolher apenas uma dentre as cinco.

A divulgação do projeto vencedor ocorreu na terça-feira, 10 de abril, e lotou o salão da cerimônia. Pais das vítimas, equipes inscritas no projeto, amigos e jornalistas aguardavam o tão esperado resultado.  Ansiosos e nervosos, os envolvidos na organização do concurso cultivam o sentimento de missão cumprida, pois a frase tão falada no discurso solene de agradecimento fazia mais sentido do que nunca: “Transformar a dor em amor”. Flávio José da Silva, pai que perdeu a filha Andrielle na tragédia, conta que foi uma responsabilidade muito grande representar os familiares e a sociedade fazendo parte do júri e  deu algumas pistas sobre o projeto vencedor antes do anúncio: “O projeto veio atender ao que as famílias almejavam. Nada luxuoso, com edificação simples e manutenção fácil, que, de certa forma, se auto-sustenta”.

Fernando Polesello, arquiteto inscrito no concurso, veio de Passo Fundo para acompanhar o momento da divulgação. “Eu e minha esposa arquiteta criamos o projeto e resolvemos participar, antes de mais nada, porque é uma obra que nos cativa bastante, afinal de contas seria um privilégio conseguir ganhar esse concurso ou ficar entre os classificados, dar uma contribuição para a população, para que dessa tragédia surja uma grande alegria, ou pelo menos um momento de respeito. Mas independente disso, vim apreciar e ver o que está sendo feito na arquitetura fora do Rio Grande do Sul, ver projetos de melhor qualidade, em termos de memorial, afinal memorial é um conceito, uma palavra bastante forte, que não é meramente arquitetura funcional. Então é nesse tipo de concurso que geralmente as ideias são lançadas.” O participante ainda acrescenta que o concurso possibilitou a exploração do lado mais artístico, conceitual e criativo da arquitetura. “Permitiu viajar, fugir de ideias mais matemáticas e metódicas”, conta Fernando.

A possibilidade de criar incentivou a participação de outros arquitetos como o Felipe Zenne Motta, o paulista vencedor do concurso. A proposta do arquiteto e sua equipe demonstrou preocupação com as palavras acessibilidade, acolhida, respeito e amor. A ideia tem como ponto principal a composição de um jardim circular de flores perenes, com 242 suportes para familiares e amigos depositarem flores em forma de carinho. A construção ainda comporta três salas multiuso, como um auditório. Estevan Barin, arquiteto e porta voz da comissão julgadora, afirma que cinco propostas diferenciadas foram levadas para a decisão final, mas a vencedora possuia algo específico: “eles acertaram em cheio apostando na sensibilidade juntamente do simbolismo, pois o simples fato é que neste memorial a pessoa recolhe a flor do canteiro e coloca no vaso da vítima.” Abaixo é possível visualizar um panorama da prancha arquitetônica do projeto proposto:

Lidia Rodrigues, arquiteta e presidente do IAB de Santa Maria, relatou os próximos passos do projeto: “Primeiro será feita a contratação do projeto, a assinatura do contrato com o vencedor e a apresentação pública da ideia, no dia 24 de abril. A contratação significa que esse arquiteto, esse escritório vai estar responsável por fazer os projetos complementares, o estrutural, o hidrossanitário, o elétrico, entre outros.  Vamos também fazer um cronograma com prazos para a elaboração desses projetos complementares”. O planejamento da demolição do prédio também está em pauta, visto que os processos judiciais do caso transitam em julgado. A demolição não terá custos em função de uma parceria com o Sindicato da Construção Civil.

A forma de financiamento da obra ainda está em aberto, o valor previsto para a construção é de 3 milhões, mais 25 mil de remuneração para o escritório vencedor e, em média, R$ 3 mil para os  selecionados do 2º ao 5º lugar. Ligia explica que existem várias possibilidades para arrecadação de fundos, uma delas é que projetos de arquitetura feitos por concurso público são habilitados a arrecadar fundos pela Lei Rouanet. Outra alternativa é uma parceria com projetos da ONU para buscar recursos internacionais.

Mariano Martin Orlando, integrante da comissão julgadora, descreve o concurso como uma ferramenta política indispensável para promover reflexão e solidariedade. “Foi um concurso democrático, sem distinção de idade e classe, promovendo a vida saudosa e respeitosa à lembrança”.

Conheça as demais colocações e as menções honrosas do concurso.

Por Tayná Lopes


Poético e político – As várias faces da tragédia da boate Kiss em “Depois Daquele Dia”


O Cineclube da Boca transformou-se num espaço para uma sessão de empatia, comoção e lágrimas. Na última terça-feira, 27 de março, foi exibido o filme Depois Daquele Dia,  com produção da TV OVO e dirigido pela jornalista Luciane Treullieb,  irmã de João Aloísio Treulieb, uma das vítimas da tragédia da Kiss.

O filme narra a história de como se sucedeu os 5 anos após o dia 27 de janeiro de 2013, trazendo diferentes pontos de vista de pessoas de Santa Maria que presenciaram a dor e o luto de uma cidade, o barulho e o silêncio causados pela tragédia.  A narrativa traz relatos de amigos e familiares de vítimas, além de entrevistas com olhares técnicos, como uma engenheira e especialistas como um psicólogo e um sociólogo.

Após a exibição, houve um debate sobre o documentário. Perguntas de como se deu a escolha dos entrevistados foram comentadas pela diretora Luciane, que relatou um pouco da sua experiência numa produção em que ela está envolvida de diversas formas. Também foram levantadas questões técnicas sobre áudio e vídeo. Entre os comentários, destacou-se a força poética da forma como o documentário trabalha com as imagens e a delicadeza como aborda a história, mas também a potência do seu papel político para enfrentar o esquecimento da tragédia que se alastrou após o primeiro ano do incêndio.

Eliane Corrêa (54), que é professora de fisioterapia na UFSM, e estava entre o público presente, comentou que o documentário é muito importante para a cidade, pois evita que a tragédia da Kiss caia no esquecimento. Ela contou que acompanhou alguns casos de sobreviventes logo após a tragédia e que pode observar sequelas que muitos terão pelo resto da vida por conta da inalação da fumaça.

Bruno Gonçalves de Oliveira também acompanhou a sessão. Ele, que foi um dos entrevistados do documentário, assistiu o filme pela primeira vez. “Mexe bastante, a gente acaba vivenciando tudo de novo”, comenta. Bruno era amigo de João Aloísio e ficou muito comovido com o documentário.

A exibição de Depois Daquele Dia integrou parte da programação de lançamento do projeto Memorial da Vida da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que homenageia as vítimas da tragédia da Kiss.

Por Larissa Essi

Sessão lotada na exibição do filme Depois Daquele Dia no Cineclube da Boca. Foto Renan Mattos

 


Documentário Depois Daquele Dia será exibido na próxima terça, 27/03


As cicatrizes deixadas pela tragédia da Boate kiss transformaram-se em uma construção fílmica sensível e forte: o documentário Depois Daquele Dia. Uma homenagem, uma memória, uma representação que traz de parte da dor, da saudade e do afeto de Santa Maria em relação aos jovens da Kiss. Para quem ainda não pode assistir, vale a pena se organizar para acompanhar a sessão na próxima terça-feira, dia 27 de março,  no Cineclube da Boca. A sessão será às 19 horas no Auditório do prédio 67, no campus da UFSM.

A exibição do documentário é uma das atividades de lançamento do projeto Memorial da Vida, que deve ser construído no campus para homenagear às vítimas da boate. Depois Daquele Dia tem duração de 50 minutos. A direção e o roteiro são de Luciane Treulieb, alguém que sentiu no coração o vazio da perda. Luciane é irmã de João Aloisio Treulieb, um dos 242 jovens que morreram e traz uma investigação em primeira pessoa sobre os impactos e aprendizados deixados pela tragédia na cidade.

A proposta de Luciane ao transformar a Kiss em um audiovisual se deu a partir do trabalho de conclusão do mestrado em Periodismo Documental, realizado na Universidad Nacional de Tres de Febrero, na Argentina. A TV OVO assina a realização do filme.

Por Tayná Lopes

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Depois daquele dia ainda somos os mesmos?


“Este filme é uma história de amor. O amor que todos nós sentimos pelos nossos filhos”, disse o pai de uma das 242 vítimas do incêndio da Kiss, Paulo Carvalho, depois de assistir ao documentário Depois Daquele Dia, que teve pré-estreia na noite de ontem (26) na Praça Saldanha Marinho. Mais um 27 de janeiro que Santa Maria silencia, mesmo em uma praça lotada de espectadores, e busca nos abraços que acomodam a dor uma forma de refletir sobre os cinco anos da tragédia.

A diretora Luciane Treulieb – irmã de uma das vítimas, João Aloísio Treulieb – narra, do ponto de vista pessoal, como foi para ela encarar a morte do irmão e como a cidade reagiu. São 10 depoimentos – jornalista, engenheiro, psicólogo, sociológico, professor, jovem, sobrevivente, pai de vítima, entre outros – que trazem pontos de vista diversos sobre o tema. Em 51 minutos a dor que toda a cidade sente ao lembrar do incêndio é traduzida de alguma forma, com uma sutileza que emociona. A cidade que já foi dos ferroviários, dos universitários, da cultura, agora é a cidade da Kiss, inevitavelmente, e o documentário vem para mostrar que isso não precisa ser ruim.

“Sinto um misto de emoções. Não era um filme que eu gostaria de ter feito. Mesmo assim, estou orgulhosa”, declarou Luciane, ao fim da exibição. Ela também deixou claro que o documentário não é sobre a morte, mas, sim, de como Santa Maria vive e recomeça depois da tragédia.

Para a jornalista e pesquisadora da área audiovisual, Marilice Daronco, o filme traz perguntas aos entrevistados de inquietações que mexem com quem vive na cidade, questões que ficam “entaladas” na garganta em forma de nó. “O que considero como grande diferencial em Depois Daquele Dia é como a diretora consegue entregar a sua dor a quem a assiste. A narrativa em primeira pessoa tem uma razão de existir, tem uma carga de sentimento como se espera desse tipo de documentário, mas que nem sempre é alcançado, e ela conseguiu”, salienta Marilice.

O documentário, que tem a produção da TV OVO e é parte do trabalho de conclusão do mestrado em Periodismo Documental realizado pela diretora na Universidad Nacional de Tres de Febrero, da Argentina, ainda será licenciado para que seja exibido na televisão e deve participar de festivais de cinema nacionais e internacionais ao longo do ano.

Veja o trailer

Por Jaiana Garcia

Foto de Pedro Piegas

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