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Oficina de audiovisual na escola Dom Antônio Reis


O projeto Olhares da Comunidade 2018 trabalha com formação de jovens por meio de oficinas e promoção de exibições de filmes em diferentes localidades, com aporte da Lei de Incentivo à Cultura (Lic/SM). A ideia é propor o exercício do olhar e o desenvolvimento da criatividade para a produção audiovisual, abordar questões técnicas da linguagem, refletir sobre temas que podem se transformar em narrativas e reforçar a relação dos estudantes com a sua comunidade.

Neste contexto, continuamos a jornada de oficinas pelas escolas municipais de Santa Maria. Nos dias 23, 25, 30 de outubro e 1º de novembro, a escola Escola Dom Antônio Reis, localizada no bairro Medianeira, receberá nossa equipe de oficineiros. Serão 20 vagas que integrarão jovens do oitavo e nono ano. A atividade prevista na Escola Pão dos Pobres, no final de setembro, precisou ser cancelada por não fechar o número mínimo de participantes. Em abril, trabalhamos com alunos do distrito de Palma. A foto abaixo é um dos registros da atividade na escola Tancredo Penna de Moraes

Por Tayná Lopes

Exercício de enquadramento a partir de espelhos. Foto Alan Orlando


Para ler e refletir: Cronicaria é uma obra de Santa Maria para e sobre o mundo


“[…] Foi então que resolvi ser eu mesmo, e aí a crônica foi cabendo em mim e ficando mais confortável como um sapato novo que me causou bolhas e calos nos primeiros dias, mas que foi laceando com o uso, moldando-se ao formato do meu pé. […] Foi o poeta João Cabral de Mello Neto que fez a reflexão mais importante sobre o ato de escrever. Ele disse que um escritor escreve por dois motivos: ou por “excesso de ser”, como fazem os escritores prolixos e transbordantes, ou por “falta de ser”. E que ele, João Cabral, fazia parte desse último grupo: “eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche o vazio existencial.””

Este trecho de Marcello Canellas, na crônica Para que um cronista escreve?, do livro recém lançado Cronicaria, traduz o sentimento de um, ou de vários escritores, inclusive o da jovem Manuela Fantinel. Apaixonada pela escrita e pela literatura, Manu que está prestes a se formar em Jornalismo, deu vida às páginas do Cronicaria junto de Marcelo, com organização da também jornalista Neli Mombelli. Tudo começou com um projeto do Sobrado Centro Cultural e da TV OVO – o sonho de publicar uma obra impressa recheada de crônicas que provocassem sentimentos, reflexão e identificação aos santa-marienses e ao mundo, a partir de olhares nativos daqui.

O sonho ganhou forma a partir de uma campanha de financiamento coletivo que circulou pelas redes, e engajou 126 pessoas das mais variadas: ilustradores, leitores assíduos, fotógrafos, jornalistas, publicitários, amigos, admiradores, familiares da Manu, fãs do Marcelo, professores e estudantes. Na plataforma online, toda quarta e todo sábado era dia de crônica, nas quartas Manuela escrevia sobre amor, sobre dor, sobre feminismo, emocionava e encantava; no sábado, Marcelo recordava o passado, trazia poesia aos fatos cotidianos, envolvia quem passasse os olhos pelo texto. Qualquer pessoa poderia passar uns minutos por ali, viajando entre as narrativas, as lembranças, e as aspirações dos nossos cronistas.

A partir de todo carinho, confiança e trabalho dos muitos parceiros, o Cronicaria nasceu em versão impressa, com lançamento na Feira do Livro de Santa Maria no início do mês de maio. A sessão de autógrafos lotou e, em um mês, foram vendidos quase 200 exemplares, além dos 800 que estão sendo distribuídos gratuitamente nas escolas públicas municipais de Santa Maria. O Cronicaria, inclusive, figurou entre os cinco livros mais vendidos da Feira.

Os pais de Manuela, Marlova e Giovani Fantinel, compartilharam a sensação de felicidade por mais uma conquista da filha no dia do lançamento: “Estamos muito felizes, muito orgulhosos. A Manu está fazendo aquilo que ela gosta, aquilo que ela ama, então ela se realizando, eu e a mãe dela nos realizamos juntos. E temos certeza que é o primeiro livro de muitos outros, porque ela gosta de escrever e faz isso com o coração, além de que ela tem as competências para fazer, a escrita faz parte dela, é um talento”, relata o pai de Manu. A mãe Marlova ainda acrescenta: “ela escreve muito o que ela sente, a opinião dela, é ela nos textos, quem conhece sabe que é a escrita da Manu. Ela sempre gostou de escrever e sempre escreveu. Eu só desejo sorte para que continue e não desista. Sempre digo para ela que sonhar é livre, tem que sonhar, mas também tem que buscar, se esforçar e acho que isso ela tem feito”.

Mas os dois escritores não são só inspiração para Marlova e Giovani. Luiza Rorato, estudante de Jornalismo de 21 anos, se espelha em Marcelo e conta que não perdia a leitura de nenhuma crônica quando eram publicadas na internet. “Eu acompanhava as crônicas todos os dias que elas saiam, tanto da Manu como do Marcelo, e eu era apaixonada lendo, nas quartas e no sábado. O meu foco no trabalho final de graduação vai ser pesquisar sobre o Marcelo Canellas, a partir de algumas produções dele, eu o adoro, tanto como pessoa quanto como jornalista. O trabalho dele é uma coisa que eu amo, eu me identifico porque a narrativa do Marcelo me toca e ele é muito presente em Santa Maria. Ele é muito santa-mariense, isso faz eu me sentir representada. Já a Manu eu vejo que ela é mais um jeito “mundo nas nuvens”, tem um estilo mais puxado para o literário, enquanto o Marcelo é mais voltado para a veracidade, para os fatos do dia a dia”.

Não importa o estilo de escrita, a linguagem ou as formas de construção das ideias, o que impressiona e diferencia é o sentimento que existe em meio as vírgulas, parágrafos e reticências. As páginas do Cronicaria são puro sentimento. Orlando Fonseca, professor de Letras e escritor, afirma que para ser um escritor é preciso ser verdadeiro consigo mesmo e a Manu nos conta que o ato escrever é uma troca, “espero que não me faltem histórias inspiradoras nesta vida. Seguirei escrevendo, como eu sempre fiz. Se eu tiver a sorte de contar com alguns leitores, melhor ainda, melhor que escrever é escrever e ser lida. A troca é o que deixa a vida completa”. Orlando Fonseca ressalta que, hoje em dia, para se colocar no mercado editorial é muito difícil, então se tu tens um “padrinho” como o Marcelo podes alçar grandes voos. Para ele, o texto vai ter facilidade de circular, se claro, tiveres uma escrita de qualidade.

Assim como o nome Cronicaria foi uma junção de palavras, uma mistura de: cotidiano, crônicas e Santa Maria, o gênero textual crônica também se faz a partir de uma fusão de estilos. Orlando explica que a crônica não tem especificidades, que ela importa técnicas e atitudes de escritores de outras categorias. “A crônica nasce junto com o jornal e com isso tem muito da cotidianidade de quem busca os fatos mas logo também se distancia do jornalismo porque o jornalista busca a veracidade dos fatos ou pelo menos a historicidade do fato, enquanto, o cronista vai buscar no mesmo fato, no mesmo cotidiano, o que foge da realidade, aquilo que é fantasioso, o que é possível produzir uma reflexão lírica. Uma dimensão poética para o cotidiano, o que o jornalista evidentemente não costuma fazer”, explica o professor. Assim, o Cronicaria é a brecha para dois jornalistas suspirarem nos intervalos do texto jornalístico. Segundo Orlando, a crônica é um gênero típico brasileiro, e que não olha o aspecto trágico da existência, mas direciona o olhar às possibilidades do pitoresco e do fantasioso, ainda que trate de fatos contundentes.

Em meio as 95 páginas do livro e 31 crônicas, o Cronicaria, na visão daqueles que o criaram é mais que um livro, é um sonho já realizado de pessoas que acreditam que é preciso olhar as delicadezas do mundo e refletir sobre as indelicadezas da sociedade. Renan Mattos, Marcos Borba, Neli Mombelli, Alexsandro Pedrollo, Elias Monteiro, Denise Copetti, Paulo Tavares, Isabela Grotto, Maria Luiza Milbradt colaboraram de diferentes formas com a proposta e idealização, com “fotocrônicas”, ilustrações sensíveis, texto de apresentação, projeto gráfico, coordenação editorial, web design entre outras funções que então se transformaram em uma obra de 1200 exemplares.

Pessoas de diferentes idades mostraram-se interessadas nas histórias do livro. Luisa, Victor, Maria Luiza e Dion estavam na fila de autógrafos com o livro nas mãos e muitas expectativas em mente. Victor Thiago Reis, de 28 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo adiantou-se e comprou o livro antes do lançamento para garantir a leitura. “Eu comprei o Cronicaria porque conheço a Manuela desde sempre, porque eu curto Jornalismo e porque eu gosto de ler crônicas.  Estou aqui pelo carinho, para prestigiar ela, porque daqui um tempo ela vai longe”. Victor já iniciou a leitura e espera encontrar mais tempo durante a rotina universitária para ficar na companhia do Cronicaria. Já Luiza Mezomo, de 15 anos, estudante e prima da Manu, adquiriu o livro poucos minutos antes de entrar na fila e disse estar ansiosa para ler. “Estou nessa fila agora porque a Manu escreve textos muito bons sobre as coisas que acontecem no nosso dia a dia. Ela consegue expressar o que a gente sente pelas palavras e de uma forma que ajuda as outras pessoas”. A designer gráfica Maria Luiza Milbradt, de 23 anos, que criou a marca do livro e também estava na fila de autógrafos, ressalta a importância de trazer dois autores diferentes em um mesmo livro: “Eu gosto muito do texto do Canellas, e com a escrita da Manu rola bastante identificação por ela ser jovem. Eu não conhecia o texto da Manu, mas por meio do projeto Cronicaria eu conheci e adorei a visão dos textos dela. Eles trazem questões para se pensar sobre a cidade. É legal esse contraponto do mais velho com o mais jovem, de um cara que está fora da cidade, que mora em Brasília, mas que também é de Santa Maria, e da Manu, que vivencia aqui, que está direto aqui”.

Dion Nunes, professor de inglês de 31 anos, ali mesmo na fila já começou sua leitura e demostrou interesse para além da narrativa escrita. Ele ressaltou a beleza das fotografias presentes no livro. “Há muitos anos conheço o trabalho do Marcelo e eu também gostei bastante das fotos que eu estou vendo aqui, inclusive um desses prédios da fotografia foi o primeiro que eu morei em Santa Maria. Essa janela aqui era do meu quarto, então meu quarto está eternizado no livro, já consegui encontrar identificação fora do texto”, comenta Dion apontando uma das imagens do livro.

O Cronicaria foi bem recebido por todos na Praça Saldanha Marinho, nas bancas de livros e no coração de quem o tinha nas mãos. Manu relata que o momento do lançamento foi muito especial. “Eu me senti sendo reconhecida por fazer algo que eu amo e acredito. Estive cercada de pessoas que generosamente torcem por mim e que a admiração é recíproca. Existe sensação melhor que essa? Foi emocionante ver um projeto realizado com tanto amor, sendo amado”. Um livro que nasceu por várias mãos, vários olhares e busca estar na estante de várias pessoas. São “doses homeopáticas de reflexões narrativas cotidianas”, como descreve o título do texto de apresentação do livro. E é complementado por Manu: “As crônicas são leves, mas não são bobas – são reflexões inteligentes e necessárias sobre a vida. É o nosso olhar – crítico, mas generoso – sobre o que já é notícia, sobre o que deveria ser notícia e sobre os detalhes do cotidiano que as câmeras não alcançam. O Cronicaria é para treinar o nosso olhar para o outro”. Quem tiver interesse em adquirir a obra, ela está disponível na Cesma, na Livraria Athena e na loja online da TV OVO.

Por Tayná Lopes

Manuela e Marcelo na sessão de autógrafos do Cronicaria na Feira do Livro de Santa Maria. Foto de Jaiana Garcia

 

 


Festival Assimetria exibiu mais de trinta filmes em dois dias


A primeira edição do Assimetria – Festival Universitário de Cinema e Audiovisual realizado entre os dias 14 e 16 de maio na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) foi sucesso de público e de produções. Foram exibidas 32 produções, de 56 inscritas, divididas nas categorias ficção, documentário e experimental. Além disso, circularam mais de 160 pessoas entre os dois pelas sessões que iniciavam às 14h30 e encerravam às 17h.

O festival premiou o melhor filme eleito pelo júri popular e os melhores filmes em cada uma das categorias, sendo o júri técnico composto pelos professores José Cláudio Castanheira (UFSC), Maria Cristina Tonetto (UFN), Gilvan Dockhorn (UFSM) e pelo professor aposentado Luiz Carlos Grassi.

Na categoria ficção, o vencedor foi o filme Sob o Signo de Escorpião (2017, 16’27”), dirigido por Nathan Luchina, produzido no curso de Cinema da UFSC. A narrativa traz características de suspense, já enunciados na sua sinopse: Virgínia levanta, faz um drinque, escreve. Um envelope sem remetente e de conteúdo misterioso perturba o seu dia.

Na categoria experimental, o vencedor foi Ansiedade (2017, 5’), dirigido por Bernardo Schmitt, também do curso de Cinema da UFSC. A sinopse descreve a obra como um documentário experimental que explora a ansiedade nas ramificações da sociedade moderna.

E nas categorias documentário e júri popular, o premiado foi Metamorfoses (2017, 15’), de Natália dos Santos Beck, produzido no curso de Produção Editorial da UFSM. Conforme a sinopse, o documentário trata a tatuagem como um mecanismo de expressão do indivíduo através do corpo, abordando os temas expressão visual, identidade e arte. Conduzida pela narração poética, a obra é composta por depoimentos de tatuados e tatuadores, performance artística, videoarte e trilha sonora autoral incitando um novo olhar sobre a tatuagem, a body art e a body modification.

Ainda, o curta A Bailarina (2017, 2’40”), inscrito na categoria experimental, de Lucas Argenta, produzido no curso de Desenho Industrial da UFSM usando a técnica de rotoscopia, recebeu menção honrosa. A Bailarina constrói-se na expectativa nostálgica de uma menina que ao rever objetos de seu passado, encontra uma caixinha de música que a envolve em um sonho de infância não realizado, o de se tornar uma bailarina.

Dos 32 filmes selecionados, 8 eram da categoria experimental, 6 documentários e 18 da categoria ficção. Cabe ressaltar ainda, dentro desse universo, os mais votados no júri popular. Dentre os cinco primeiros lugares, com exceção do primeiro, Metamorfoses, que é um documentário, os demais são todos da categoria ficção.

O segundo lugar mais votado foi i13.9 (2017, 1’), com direção de Matheus Fighera, acadêmico de Desenho Industrial da UFSM, que trata da reação do terceiro mundo à catástrofe nuclear. Já o terceiro lugar, Astronauta (2017, 11’), de Theo Tajes, do curso de Realização Audiovisual da Unisinos, conta a história de um menino e seu pai, que vivem em um enorme ferro velho. A mãe (e esposa) os abandonou há muitos anos. Um dia, o menino encontra um capacete de astronauta em meio aos destroços e decide se aventurar mundo afora atrás de sua mãe.

Empatados com o quarto lugar estão Drago e Karma. Drago (2018, 12’), dirigido por Alan Orlando, acadêmico de Produção Editorial da UFSM, trata do ser em colapso. Silva é só mais um transeunte em crise existencial. A sua relação com um edifício da cidade é o plano de fundo para sua briga interna. Já Karma (2016, 7’34”), produzido no curso de Jornalismo da UFN, com direção de Victor Mosttajo, traz o drama de um taxista aposentado, que sozinho em seu carro, se prepara para acabar com a própria vida. Pouco antes de dar o último suspiro, uma memória o faz relembrar da noite que o levou até aquele ponto. Aquela foi a noite de sua ruína, mas também o seu maior momento de altruísmo, seria isso o suficiente para o impedi-lo de desistir de tudo?

O festival integrou a programação do 6º Fórum Arte, Cinema e Audiovisual, que é realizado pelo Mestrado em Artes Visuais (PPGART), Centro de Artes e Letras (CAL) da UFSM, Laboratório de Pesquisa em Arte Contemporânea, Tecnologia e Mídias Digitais (LABART), Cineclube da Boca e da TV OVO, com parceria de professores do curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Além do festival, o fórum contou, na segunda, 14, com uma mesa sobre Festivais Universitários, com a presença de Célia Mello (UFSC) e Kitta Tonetto da (UFN), e uma mesa sobre Produção de Festivais e Mostras com a Irit Batsry (FUSO/Portugal) e Ana Lígia (MIS/SC), além de uma oficina de documentário de 14 a 16, chamada de Poética da Realidade, que foi ministrada pelo cineasta uruguaio Gabriel Szollosy.

Por Fernanda Marques e Neli Mombelli

Dois dias com 32 filmes exibidos e mais de 160 espectadores. Foto de Roger Bonfanti Haeffner