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Sobre mim, sobre você e sobre ela


Para comemorar os 26% atingidos até o momento do financiamento coletivo para o Cronicaria (Acesse e doe em: catarse.me/cronicariatvovo), a Manuela escreveu uma crônica. Uma crônica sobre a crônica, para dar gostinho do que será o Cronicaria. A gente agradece de coração as contribuições e seguimos em campanha até o dia 08 de agosto. Em tempo, Cronicaria é um projeto que depende de você e é para você: são crônicas de Manuela Fantinel e Marcelo Canellas que serão publicadas entre agosto e dezembro, nas quartas-feiras e sábados. 

Sobre mim, sobre você e sobre ela

Eu queria tocar a campainha do céu. Você, na ponta dos pés, abriria a porta. Talvez estivesse só de fraldas e pés descalços. Uma possível meleca no nariz. Eu tentaria pegar você no colo. Assustada, fugiria de mim. Arriscaria uma brincadeira – ou cócegas, no auge do meu desespero – e você ia achar graça. Porque as crianças acham graça! Ou não. Você já passou por tantas coisas que talvez não ache o mundo um lugar engraçado ou gracioso. E a verdade é que ele costuma não ser – o que me entristece é que você, tão nova, já tenha descoberto isso. Na última terça-feira, 11 de julho, uma criança de três anos perdeu a vida em Santa Maria. Ela foi vítima de violência doméstica. Os agressores? A mãe e o padrasto.

Algumas histórias não são boas de serem contadas ou agradáveis de serem ouvidas. A televisão nos mostra e, na hora do almoço, ninguém quer falar sobre o assunto. O único comentário que costuma rolar é um “têm coisas que não dá para acreditar, né?”. Não dá para acreditar e, então, não acreditamos… E seguimos como se isso não fosse real – a vida precisa seguir, afinal. Escolhemos nos proteger (por covardia) e praticar a aceitação (e o egoísmo). Vira banalidade. Mas aí eu me lembro da minha afilhada de quatro anos, tão inteligente, incrível e “cheia de graça”, e entendo que a humanidade não falhou em sua capacidade de amar, mas na má distribuição do amor. E do dinheiro. E da educação. E da comida. E de tudo que se propôs a fazer.

Nós não temos o dom da empatia, o dom do amor ou o da compaixão. O que temos, na verdade, é o dom de desenvolvermos os melhores e os piores sentimentos do mundo – o que é tão encantador quanto, mas exige um pouco mais de nós. A crônica, como uma mágica, chega ao mundo para nos despertar e nos educar para essas emoções. Porque eu não escrevo fantasias, roteiros hollywoodianos ou histórias para dormir. Eu escrevo sobre mim, sobre você e sobre ela. As histórias que ninguém quer ler, mas que todos torcem para que sejam escritas. Se a crônica é sobre nós, ela não é apenas sobre a vida. Ela também é sobre a morte. É sobre tudo, ou sobretudo, no que está entre. Crônica é sobre o choro e o riso – às vezes, no mesmo texto -, como a vida é – às vezes, na mesma hora.

Se a crônica fosse alguma parte do ser humano, seria a pele. Não adianta ignorar – fechar os olhos ou os ouvidos -, quando algo te corta, vai doer. Quando algo te arrepia, é impossível evitar: vai arrepiar. A crônica não é a televisão e os seus olhos, não é o rádio e os seus ouvidos – e não é melhor que nenhuma delas -, é apenas o que há de mais animal em nós. É a reflexão marginal. A consideração sobre os nossos acertos e fracassos – esses que grande parte da humanidade evita pensar. É. Talvez cronicar seja um respiro de autoconhecimento e, por isso, de esperança. Alguém precisa deixar registrado que, apesar dos romances encomendados e das ficções que enchem as salas de cinema, a realidade continua extraordinária!

Dessa Terra, no fim, a gente só leva a meleca do nariz – uma semelhante a que a criança a qual foi tirada a graça teria se abrisse a porta para mim, e essa mesma que a minha afilhada, tão amada, também tem. E isso é importante que a gente nunca esqueça: o mundo gosta muito de apontar as nossas diferenças (religiosas, culturais, ideológicas). É o que dá ibope. Mas contar as histórias do cotidiano é uma oportunidade de mostrar que as nossas semelhanças são muito maiores que as discordâncias. Porque se você olha para o lado e não consegue ver o outro, aqui você vai ver o outro olhando para você – e isso vai te cortar a pele, se for preciso; ou arrepiar, se nós tivermos alguma sorte. Quem lê sobre a realidade de quem está distante não corre o risco de achar que a vida é pequena. Ela é grande – nem sempre longa, nem sempre graciosa, mas sempre grande, como só um amontoado de palavras poderia ser.

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O jornalismo e a capacidade de estranhamento


Trabalhar no campo do audiovisual não é uma tarefa fácil. A variedade de ferramentas narrativas e contra narrativas que temos é gigantesca e além das barreiras criativas e imposições externas podem influenciar no resultado final de uma produção. O Colóquio Narrativas Audiovisuais e Informação, que ocorreu na quinta-feira (11) no Theatro Treze de Maio, discutiu a pluralidade nas maneiras de se fazer audiovisual, tocando em pontos como a ascensão dos dispositivos móveis e a emergência de novas ferramentas para contar histórias em movimento.

 

Laura Capriglione, do Jornalistas Livres, falou sobre a necessidade do jornalista se inserir nos atos dos movimentos sociais e usou como exemplo sua cobertura feita durante as reintegrações de posse na capital paulista em 2013. A jornalista também enfatizou como a mídia tradicional pode operar de forma a criminalizar movimentos, apresentando as minorias como vilãs. Ela também comentou sobre a importância das redes sociais como novidade narrativa em meio à crise no jornalismo, pois graças a essas ferramentas, fatos que antes não  tinham voz, acabam ganhando espaço, como o caso Amarildo. As mídias alternativas, juntamente com as redes sociais e os dispositivos móveis, para ela, ampliam a variedade de narrativas e abrem espaços para pautas feministas, étnicas, de temas ligados à comunidade LGBT, entre outros, que são noticiados de forma mais humanizada.

 

Mesmo inserido dentro de um veículo de comunicação tradicional, o jornalista Marcelo Canellas deixou claro seu posicionamento dentro da emissora e falou que a censura faz parte da vida do jornalista, mas que é preciso aprender a defender e a trabalhar o viés que se acredita. Mas as dificuldades não estão só na redação, como em uma recente reportagem sobre Liliane, uma mulher que ficou quase dois anos afastada do filho pequeno, depois de uma denúncia falsa de maus-tratos, que após uma decisão da Justiça conseguiu recuperar parte da guarda do filho que é dividida com a família que acolheu a criança. Devido uma imposição judicial, a rede Globo foi proibida de exibir imagens da criança e da família adotiva. Para não perder o material, a opção foi trabalhar reelaborar a narrativa com ilustrações e recorrer à encenação para não derrubar a pauta. Canellas afirma que ter posição e não ter medo de dialogar com os editores-chefes é a melhor maneira para se iniciar as mudanças nas redações. Para ele, pautas sempre são a respeito da condição humana e sua relação com a desigualdade social, ainda tão intensa em nossa sociedade.

 

O colóquio contou ainda com a presença de Eliza Capai. Para a produção do documentário Tão Longe é Aqui, a jornalista itinerante visitou o município de Guaribas, no Piauí, que já foi o lugar com o segundo menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do país, situação essa que, segundo ela, mudou após a implementação dos programas Bolsa Família e Fome Zero. Titulares do bolsa família, as sertanejas estão começando a transformar seus papéis na família e na sociedade do interior do Piauí e se libertando da servidão ao homem, milenar como a miséria. Inclusive, as novas gerações já passam a se mostrar contrárias às situações ao seu redor, como casar e viver para cuidar da casa. Durante sua estadia na região Nordeste, Eliza percebeu que mesmo em um lugar quase esquecido, onde assuntos relacionados a pauta feminista estão longe de ser algo em alta e o machismo ainda impera, a juventude vem se mostrando extremamente empoderada e pequenas ações como os benefícios sociais têm grande influência nessa oportunidade de independência das mulheres. São os estranhamentos culturais que movem muitas das produções da documentarista.

Por Valdemar Neto

Foto de Pedro Piegas

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Jornalista Marcelo Canellas recebe Medalha do Mérito Farroupilha


No último dia 27 de junho, o jornalista Marcelo Canellas, parceiro aqui da TV OVO, recebeu a Medalha do Mérito Farroupilha, uma homenagem concedida pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul àqueles que contribuem para o desenvolvimento econômico, social e cultural do estado.

A homenagem foi proposta pelo deputado estadual Valdeci Oliveira, que, assim como Canellas, é santa-mariense por adoção. Durante a cerimônia, Valdeci ressaltou a vocação de Canellas para tratar de temas sociais em suas reportagens, “o que contribui para a reflexão da sociedade e, consequentemente, para a mudança no País”. Na ocasião, Valdeci citou os mais recentes e que fazem menção direta a Santa Maria, como a reportagem sobre a Royale Escola de Dança e Integração e a doação do casarão da esquina entre as Floriano Peixoto e Ernesto Becker para a TV OVO.

Durante a homenagem, Canellas, que adota para si as características de repórter peregrino e cronista provinciano, lembrou que mesmo morando fora do RS nesses 28 anos em que atua como jornalista nacional e internacionalmente, nunca deixou de estar ligado a Santa Maria e ao Rio Grande do Sul.

Natural de Passo Fundo, Marcelo Canellas formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria em 1987. Depois de um breve período como repórter da RBS Santa Maria, migrou para a EPTV de Ribeirão Preto, e logo passou a constar no quadro de repórteres especiais da Rede Globo. Por suas reportagens, Canellas já recebeu diversos prêmios, dentre eles o prêmio Vladimir Herzog na categoria documentário e a Medalha ao Mérito da Organização das Nações Unidas.

Em 2013, lançou seu primeiro livro, Províncias, crônicas da alma interiorana:

Foto: Guerreiro – Agência de Notícias ALRS

Por William Boesio

Medalha do Mérito FerroupilhaMedalha do Mérito Farroupilha


A construção do Sobrado Centro Cultural


“Quando Evandro Ribeiro mandou fazer esse casarão em 1916, exatos 100 anos, ele não sabia que estava ajudando a dar rosto, a dar fisionomia ao momento urbano da nossa cidade, ele não sabia que estava ajudando a imprimir a digital da nossa identidade e do nosso passado ferroviário. Em 1996, precisamente no dia 12 de maio, portanto há exatos 20 anos, quando Paulo Tavares reuniu um grupo de garotos lá na Vila Caramelo, ele provavelmente não sabia a extraordinária aventura que ele estava começando para retirar jovens da periferia do desalento e do desamparo e oferecendo caminhos e possibilidades para eles. Quando eu comprei essa casa aqui, eu só queria salvar um casarão da ruína. Eu não sabia que seria o ponto de conexão dessas duas histórias tão fabulosas.”

Foi com essas palavras que, em 12 de maio de 2016, o jornalista Marcelo Canellas fez da casa do poeta Evandro Ribeiro a casa oficial da TV OVO, nosso viveiro de sonhos, segundo Paulo Tavares.

Em solenidade, com a presença de  amigos, diversos produtores culturais e autoridades do município, Marcelo Canellas assinou o documento que transfere a posse do sobrado, localizado na esquina da rua Floriano Peixoto com a Ernesto Becker, para a TV OVO, que ocupava o casarão desde de 2011, quando foi acertada a parceria entre Canellas e a instituição.

Com a transferência do casarão, a TV OVO ganhou um espaço que agora pode chamar de seu, mas que também é de todo santa-mariense. Estavam presentes aproximadamente 80 pessoas para a apresentação do projeto de Restauro do Sobrado Centro Cultural,coordenado pelos arquitetos Clarissa Pereira e Daniel Pereyron que contaram com a ajuda de colaboradores que se somaram durante o período de elaboração.

O projeto apresentado prevê dois espaços. Um deles é a restauração do casarão que abrigará o museu da imagem e do som, cineclube, biblioteca do audiovisual, café cultural e espaço para exposições. O outro ambiente será um prédio, aos fundos, com salas de aulas, estúdios de TV, cinema e áudio e espaço para apresentações teatrais.

“O Sobrado Centro Cultural pode ser um espaço de reflexão e crítica ao jornalismo que é feito pelos meios tradicionais, e de novos caminhos para uma profissão que está mudando quanto à gestão de negócios, à plataformas e modos de fazer”, foram as palavras finais da fala de Marcelo Canellas.

Até o final de julho, as equipes do escritório de arquitetura Smarqs e Simultânea Engenharia trabalham nos projetos estrutural e complementares para, após esta etapa, a TV OVO iniciar a captação de recursos em leis de incentivo. Além do direcionamento de recursos por meio de mecanismos de fomento, pessoas físicas e jurídicas também pode fazer doações diretas para construção do Sobrado Centro Cultural de fato.

Por Helena Moura, Laura Boessio e William Boessio

Fotografia de Julia Machado

Assinatura da escritura de doação do imóvel.

Assinatura da escritura de doação do imóvel.


O poder de agendamento dos grandes veículos


Na tarde do dia 12 de maio, às 16h, iniciou-se o Colóquio 100/20: Jornalismo na era da internet, realizado no Theatro Treze de Maio. O tema da primeira mesa foi Novas plataformas, debate público e agendamento na era da internet, com a mediação de Marcelo Canellas e participações de Lúcio Flávio Pinto, Francisco Karam e Moisés Mendes.

O jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto não pode estar presente, mas participou por intermédio de um vídeo depoimento que abriu o debate. Nele, falou a respeito de sua trajetória profissional, sobre a época da Ditadura Militar, quando trabalhou simultaneamente na grande imprensa (Jornal Estado de São Paulo) e na imprensa alternativa (Jornal Opinião). Comentou sobre como ele, no Estadão, mesmo com toda a censura da ditadura, conseguiu fazer reportagens especiais sobre a Amazônia. Também falou a respeito do assassinato do ex-deputado e ativista político Paulo Fonteles, fato que o motivou a criar o seu próprio veículo, o Jornal Pessoal.

Lúcio Flávio acreditava que, com o fim da ditadura, não haveria motivo para ainda existir mídia alternativa, afinal, não existia mais a censura. Quando criou o Jornal Pessoal, também pensou que seria somente uma única edição, pois a imprensa era livre pra escrever o que bem quisesse. Entretanto, logo viu que não era bem isso: apesar de não sofrer com a censura política como outrora, a grande mídia ainda era e é escrava de seus anunciantes e comparsas políticos. Foi por isso que o Jornal Pessoal continua até hoje. Como ele é feito apenas por uma pessoa e não possui anunciantes, Lúcio Flávio Pinto pode escrever nele o que quiser, falar mal ou bem de quem entender. O que sai no Jornal Pessoal não sai na grande mídia, que se auto-proíbe de publicar diversas reportagens em benefício do seu lucro.

Dando prosseguimento ao evento, Canellas chamou ao palco Moisés Mendes, ex-colunista da Zero Hora, e Francisco Karam, professor especialista em ética no jornalismo. Moisés abriu sua fala já remetendo ao acontecimento simbólico do dia: o golpe contra o governo de Dilma Rousseff, assunto que acabaria por permear tanto o debate da tarde quanto o da noite. Relacionando-o com a temática do agendamento, o jornalista colocou em questão a capacidade que a imprensa terá de fazer uma avaliação a respeito do seu papel durante o impeachment daqui a alguns anos, diante da produção precária de informação em meio à crise política. Esta necessidade de auto-avaliação foi algo apontado pelos dois convidados. Durante toda a crise, a grande mídia se mostrou favorável ao impeachment da presidenta Dilma, atacando-a de forma grotesca e machista, inclusive, ponderaram os convidados.

Sobre os caminhos da profissão, Moisés Mendes decretou: “Não podemos ser românticos ao achar que se pode enfrentar a mídia tradicional sem encarar o jornalismo como negócio rentável”. Ele lembrou que as vagas de emprego no jornalismo tradicional estão ficando raras, e que as demissões são frequentes, então, “os jovens jornalistas terão que ir atrás de outros meios de se fazer jornalismo para sobreviver”. Mendes finalizou a sua fala cobrando o posicionamento dos profissionais da área diante das mais variadas questões, de forma que se tornem verdadeiros ativistas das causas humanistas e lançou: “Jornalista reacionário não tem futuro no mundo”.

Nove questionamentos foram abordados pelo professor Francisco Karam em sua fala. As perguntas rodaram em volta de temas políticos, como o jornalismo está presente nesse temas e como as novas plataformas podem vir a fazer um jornalismo de qualidade. Ao perguntar-se se o agendamento feito pela imprensa tradicional havia sofrido mudança e talvez enfraquecido com o jornalismo alternativo. “O agendamento da imprensa hegemônica é forte. O jornalismo alternativo ainda está muito longe de competir diretamente com isso”, diz o professor,  destacando a fraqueza da imprensa alternativa perante o poder dos meio tradicionais. Para ele, quem dita o que é notícia ou não ainda é a grande mídia.

Karam fez duras críticas ao modo como é produzido conteúdo na web, apontando necessidade de aprofundamento dos assuntos e que um grande desafio é convencer o público do porquê se manter informado, do porquê de ir atrás da notícias. Outro ponto discutido foi  a existência de um espaço para o debate sincero, na qual o professor coloca: “Não acho que exista um debate sincero. Na mídia hegemônica, o cinismo e o narcisismo se sobrepuseram ao debate”. O professor ressaltou a importância de se investir nas novas plataformas e de se investir em um bom jornalismo, aprofundado e pautado nos interesses públicos.

Após as colocações dos convidados, abriu-se espaço para perguntas do público. Foram levantados questionamentos a respeito de como fazer jornalismo na internet e de como o jornalismo pode se auto-avaliar nas questões a respeito do impeachment da presidenta Dilma. Teve, inclusive, uma pergunta de Moisés Mendes para o mediador da mesa, Marcelo Canellas, sobre como fica as grandes reportagens de humanidades no meio de toda essa discussão política. Canellas respondeu colocando que o valor da grande reportagem nunca foi tão imprescindível no jornalismo brasileiro. Contou um pouco também sobre a luta pelo agendamento nas reuniões de pauta para o programa que trabalha, expondo que é preciso estudar e estar municiado para defender as suas pautas, saber lutar por elas, para elas então fazerem parte da agenda nacional.

Por Nicoli Saft e Matheus Oliveira

Foto Neli Mombelli

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A aposta na grande reportagem em tempos de internet


Eram 19h de uma noite de quinta-feira. Mas sem dúvida, não uma quinta qualquer. Dia 12 de maio: aniversário da TV OVO e dia de discussão sobre jornalismo. O Theatro Treze de Maio estava lotado e a segunda mesa do Colóquio 100/20 estava pronta para se formar. Sentados sob as luzes do palco do Treze, ao lado do mediador Marcelo Canellas, estavam os jornalistas Andrea Dip, Mauri König e Humberto Trezzi.

Conhecidos por suas diferentes trajetórias, eles vieram à Santa Maria conversar com estudantes, professores, jornalistas, pesquisadores e interessados sobre o passado e o futuro do jornalismo. E por falar em futuro, o clima era de esperança. Trezzi, jornalista da Zero Hora, deu início à conversa e foi responsável pela primeira injeção de otimismo: “Eu acho que estamos vivenciando o melhor momento para fazer grandes reportagens no jornalismo, inclusive nos veículos impressos”, apostou ele.

O debate se deteve à produção de grandes reportagens investigativas na era da volatilidade da internet. Será tão quimérico a busca pela perenidade em uma época onde as notícias se tornam velhas tão rapidamente? König, jornalista independente, não acredita ser. Segundo ele, o jornalismo voltado para as grandes reportagens vem se fortalecendo no país e a internet é catalisadora dessa produção. “Precisamos pensar em todo o potencial que a internet nos proporciona e como ele vem sendo utilizado”, arrebatou o premiado jornalista.

Outra grande questão apontada por Mauri foi o financiamento dessas matérias. Quando matérias investigativas são desvinculadas de um meio de comunicação tradicional, abre-se portas para que os profissionais trabalhem em uma única reportagem durante um vasto período de tempo, contudo, é necessário recursos para a produção da reportagem. Já, quando uma ela está na pauta das grandes redações, a reportagem corre o risco de se misturar à demanda comum de trabalho e a maioria dos jornalistas acaba não tendo a possibilidade de dedicação integral à investigação.

Andrea abordou a experiência na Agência Pública de Jornalismo Investigativo e as possibilidades deste financiamento. A Agência é apoiada por fundações internacionais e também se utiliza de financiamentos coletivos, os crowdfunding. A Pública também age como moderadora de oportunidades e oferece bolsas para jovens jornalistas que podem inscrever suas pautas e ganharem o incentivo para executá-las. “Acho que o sonho de todo o jornalista é ser apoiado pelo público que lê as reportagens”, afirmou Andrea.

Para quem pensa que a internet deve trazer sempre notícias ínfimas e fragmentadas com a justificativa de que os internautas não lêem conteúdos extensos, Trezzi e Andrea refutaram essa teoria. “As pessoas lêem grandes reportagens, sim. Os leitores pedem por elas e quando elas saem, têm grande repercussão na maioria das vezes”, comentou Trezzi, que trabalha com o impresso. Cabe aos jornalistas então, entender a lógica dessa produção para diversos meios, como a internet que nos proporciona a utilização de uma linguagem rica, com possibilidades multimídias, e uma apropriação rápida. Sobre essa questão, Andrea salientou o poder de replicação que a internet possui – o copyleft que a Agência Pública procura disseminar em suas matérias que são em plataforma online.

A aposta foi unânime: o jornalismo independente vem se fortalecendo no Brasil, nos últimos anos, e muito dessa visibilidade se dá por meio da rede. A produção das chamadas grandes reportagens nos dá a possibilidade de deixar de nadar no raso das hard news. Nos possibilita estudo e compreensão de assuntos de interesse público que merecem um olhar mais apurado e cuidadoso. Um tipo de jornalismo engenhoso, perspicaz e corajoso. Corajoso para quem aposta. “É um jornalismo que nos permite amarrar todas as pontas da informação”, conclui Andrea Dip.

Por Julia Machado e Helena Moura 

Foto Renan Mattos
Colóquio grande reportagem