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O poder de agendamento dos grandes veículos


Na tarde do dia 12 de maio, às 16h, iniciou-se o Colóquio 100/20: Jornalismo na era da internet, realizado no Theatro Treze de Maio. O tema da primeira mesa foi Novas plataformas, debate público e agendamento na era da internet, com a mediação de Marcelo Canellas e participações de Lúcio Flávio Pinto, Francisco Karam e Moisés Mendes.

O jornalista e sociólogo Lúcio Flávio Pinto não pode estar presente, mas participou por intermédio de um vídeo depoimento que abriu o debate. Nele, falou a respeito de sua trajetória profissional, sobre a época da Ditadura Militar, quando trabalhou simultaneamente na grande imprensa (Jornal Estado de São Paulo) e na imprensa alternativa (Jornal Opinião). Comentou sobre como ele, no Estadão, mesmo com toda a censura da ditadura, conseguiu fazer reportagens especiais sobre a Amazônia. Também falou a respeito do assassinato do ex-deputado e ativista político Paulo Fonteles, fato que o motivou a criar o seu próprio veículo, o Jornal Pessoal.

Lúcio Flávio acreditava que, com o fim da ditadura, não haveria motivo para ainda existir mídia alternativa, afinal, não existia mais a censura. Quando criou o Jornal Pessoal, também pensou que seria somente uma única edição, pois a imprensa era livre pra escrever o que bem quisesse. Entretanto, logo viu que não era bem isso: apesar de não sofrer com a censura política como outrora, a grande mídia ainda era e é escrava de seus anunciantes e comparsas políticos. Foi por isso que o Jornal Pessoal continua até hoje. Como ele é feito apenas por uma pessoa e não possui anunciantes, Lúcio Flávio Pinto pode escrever nele o que quiser, falar mal ou bem de quem entender. O que sai no Jornal Pessoal não sai na grande mídia, que se auto-proíbe de publicar diversas reportagens em benefício do seu lucro.

Dando prosseguimento ao evento, Canellas chamou ao palco Moisés Mendes, ex-colunista da Zero Hora, e Francisco Karam, professor especialista em ética no jornalismo. Moisés abriu sua fala já remetendo ao acontecimento simbólico do dia: o golpe contra o governo de Dilma Rousseff, assunto que acabaria por permear tanto o debate da tarde quanto o da noite. Relacionando-o com a temática do agendamento, o jornalista colocou em questão a capacidade que a imprensa terá de fazer uma avaliação a respeito do seu papel durante o impeachment daqui a alguns anos, diante da produção precária de informação em meio à crise política. Esta necessidade de auto-avaliação foi algo apontado pelos dois convidados. Durante toda a crise, a grande mídia se mostrou favorável ao impeachment da presidenta Dilma, atacando-a de forma grotesca e machista, inclusive, ponderaram os convidados.

Sobre os caminhos da profissão, Moisés Mendes decretou: “Não podemos ser românticos ao achar que se pode enfrentar a mídia tradicional sem encarar o jornalismo como negócio rentável”. Ele lembrou que as vagas de emprego no jornalismo tradicional estão ficando raras, e que as demissões são frequentes, então, “os jovens jornalistas terão que ir atrás de outros meios de se fazer jornalismo para sobreviver”. Mendes finalizou a sua fala cobrando o posicionamento dos profissionais da área diante das mais variadas questões, de forma que se tornem verdadeiros ativistas das causas humanistas e lançou: “Jornalista reacionário não tem futuro no mundo”.

Nove questionamentos foram abordados pelo professor Francisco Karam em sua fala. As perguntas rodaram em volta de temas políticos, como o jornalismo está presente nesse temas e como as novas plataformas podem vir a fazer um jornalismo de qualidade. Ao perguntar-se se o agendamento feito pela imprensa tradicional havia sofrido mudança e talvez enfraquecido com o jornalismo alternativo. “O agendamento da imprensa hegemônica é forte. O jornalismo alternativo ainda está muito longe de competir diretamente com isso”, diz o professor,  destacando a fraqueza da imprensa alternativa perante o poder dos meio tradicionais. Para ele, quem dita o que é notícia ou não ainda é a grande mídia.

Karam fez duras críticas ao modo como é produzido conteúdo na web, apontando necessidade de aprofundamento dos assuntos e que um grande desafio é convencer o público do porquê se manter informado, do porquê de ir atrás da notícias. Outro ponto discutido foi  a existência de um espaço para o debate sincero, na qual o professor coloca: “Não acho que exista um debate sincero. Na mídia hegemônica, o cinismo e o narcisismo se sobrepuseram ao debate”. O professor ressaltou a importância de se investir nas novas plataformas e de se investir em um bom jornalismo, aprofundado e pautado nos interesses públicos.

Após as colocações dos convidados, abriu-se espaço para perguntas do público. Foram levantados questionamentos a respeito de como fazer jornalismo na internet e de como o jornalismo pode se auto-avaliar nas questões a respeito do impeachment da presidenta Dilma. Teve, inclusive, uma pergunta de Moisés Mendes para o mediador da mesa, Marcelo Canellas, sobre como fica as grandes reportagens de humanidades no meio de toda essa discussão política. Canellas respondeu colocando que o valor da grande reportagem nunca foi tão imprescindível no jornalismo brasileiro. Contou um pouco também sobre a luta pelo agendamento nas reuniões de pauta para o programa que trabalha, expondo que é preciso estudar e estar municiado para defender as suas pautas, saber lutar por elas, para elas então fazerem parte da agenda nacional.

Por Nicoli Saft e Matheus Oliveira

Foto Neli Mombelli

agendamento


No palco do Treze, os grandes atores da reportagem falam sobre os rumos dessa peça


Se a notícia é o lugar comum do jornalismo, lugar em que as perguntas básicas de uma apuração são capazes de informar minimamente o leitor, ouvinte ou telespectador sobre determinado assunto, a reportagem é a ferramenta que possibilita ao repórter problematizar mais a fundo um determinado tema. Mas, passados os anos-dourados da grande reportagem como o trunfo que estampava capas de jornais e revistas, a crise no modelo de negócios do jornalismo industrial tem imposto dias ruins às grandes redações, que veem suas vendas e assinaturas caírem vertiginosamente, e aos próprios jornalistas, que, se não acabam desempregados em revoadas de passaralhos, tem suas atuações limitadas pelas condições de trabalho em quadros enxutos de funcionários.

Em teoria, o advento da internet – e, principalmente, o aumento no número de pessoas com acesso à internet (mesmo que esse número aponte uma exclusão de metade da população brasileira) – teria sido o responsável pela quebra no modelo de negócios estabelecido, e, então, pela impossibilidade de se realizar um jornalismo amplo, diverso e profundo, com o emprego de tantos recursos quanto fossem necessários, e que chegasse a tantos leitores, ouvintes e telespectadores como antes. Se hoje nenhum teórico no mundo conseguiu chegar à conclusão de um modelo viável para a atividade e  se vários veículos estejam se rendendo a listas buzzfeedizadas e caça-cliques, isso não significa que não existam iniciativas e pessoas que persistam na realização de um jornalismo que segue os grandes preceitos da profissão. Iniciativas como o financiamento por crowdfunding ou a apuração virtual de grandes bases de dados, como no recente caso dos Panama Papers, mostram como os aspectos do coletivo e do virtual têm sido essenciais para o desenvolvimento de reportagens que efetivamente mexam naquilo que está posto.

É com a ideia de debater sobre o exercício da grande reportagem no Brasil – da maneira como se deu nos últimos anos e de como a internet tem influenciado a prática do jornalismo – que traremos, à Santa Maria, profissionais de naipes variados e que são reconhecidos por suas reportagens. São profissionais garantidos em grandes veículos por uma longa carreira de sucesso, como é o caso de Mauri König, que atuou por muito tempo como repórter da Gazeta do Povo de Curitiba e hoje escreve para Folha de São Paulo, e de Humberto Trezzi, repórter da Zero Hora, de Porto Alegre, ou garantidos em novos espaços nascidos nesta década de incertezas, como é o caso da Andrea Dip, repórter da Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo.

No próximo dia 12 de maio, não sairemos do Theatro Treze de Maio com conclusões definitivas sobre como o jornalismo passará a ser executado. Longe disso. Duvidamos também que alguém saiba nos dizer. Esperamos, porém, que  após a conversa com aqueles que praticam um jornalismo de qualidade no país, a partir das 19h, muitos possam sair do Theatro minimamente inspirados para fazer o mesmo.

E para quem quiser mais debate, às 16h do mesmo dia tem outra conversa sobre  Novas plataformas, debate público e agendamento na era da internet. O colóquio é uma realização da TV OVO em parceria com o curso de Jornalismo da Unifra e com o programa de pós-graduação em Comunicação da UFSM. Senhas poderão ser retiradas pelos acadêmicos junto aos cursos de jornalismo e para o público em geral na portaria do Theatro.

Por William Boessio

colóquio investigação