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Para ler e refletir: Cronicaria é uma obra de Santa Maria para e sobre o mundo


“[…] Foi então que resolvi ser eu mesmo, e aí a crônica foi cabendo em mim e ficando mais confortável como um sapato novo que me causou bolhas e calos nos primeiros dias, mas que foi laceando com o uso, moldando-se ao formato do meu pé. […] Foi o poeta João Cabral de Mello Neto que fez a reflexão mais importante sobre o ato de escrever. Ele disse que um escritor escreve por dois motivos: ou por “excesso de ser”, como fazem os escritores prolixos e transbordantes, ou por “falta de ser”. E que ele, João Cabral, fazia parte desse último grupo: “eu sinto que me falta alguma coisa. Então, escrever é uma maneira que eu tenho de me completar. Sou como aquele sujeito que não tem perna e usa uma perna de pau, uma muleta. A poesia preenche o vazio existencial.””

Este trecho de Marcello Canellas, na crônica Para que um cronista escreve?, do livro recém lançado Cronicaria, traduz o sentimento de um, ou de vários escritores, inclusive o da jovem Manuela Fantinel. Apaixonada pela escrita e pela literatura, Manu que está prestes a se formar em Jornalismo, deu vida às páginas do Cronicaria junto de Marcelo, com organização da também jornalista Neli Mombelli. Tudo começou com um projeto do Sobrado Centro Cultural e da TV OVO – o sonho de publicar uma obra impressa recheada de crônicas que provocassem sentimentos, reflexão e identificação aos santa-marienses e ao mundo, a partir de olhares nativos daqui.

O sonho ganhou forma a partir de uma campanha de financiamento coletivo que circulou pelas redes, e engajou 126 pessoas das mais variadas: ilustradores, leitores assíduos, fotógrafos, jornalistas, publicitários, amigos, admiradores, familiares da Manu, fãs do Marcelo, professores e estudantes. Na plataforma online, toda quarta e todo sábado era dia de crônica, nas quartas Manuela escrevia sobre amor, sobre dor, sobre feminismo, emocionava e encantava; no sábado, Marcelo recordava o passado, trazia poesia aos fatos cotidianos, envolvia quem passasse os olhos pelo texto. Qualquer pessoa poderia passar uns minutos por ali, viajando entre as narrativas, as lembranças, e as aspirações dos nossos cronistas.

A partir de todo carinho, confiança e trabalho dos muitos parceiros, o Cronicaria nasceu em versão impressa, com lançamento na Feira do Livro de Santa Maria no início do mês de maio. A sessão de autógrafos lotou e, em um mês, foram vendidos quase 200 exemplares, além dos 800 que estão sendo distribuídos gratuitamente nas escolas públicas municipais de Santa Maria. O Cronicaria, inclusive, figurou entre os cinco livros mais vendidos da Feira.

Os pais de Manuela, Marlova e Giovani Fantinel, compartilharam a sensação de felicidade por mais uma conquista da filha no dia do lançamento: “Estamos muito felizes, muito orgulhosos. A Manu está fazendo aquilo que ela gosta, aquilo que ela ama, então ela se realizando, eu e a mãe dela nos realizamos juntos. E temos certeza que é o primeiro livro de muitos outros, porque ela gosta de escrever e faz isso com o coração, além de que ela tem as competências para fazer, a escrita faz parte dela, é um talento”, relata o pai de Manu. A mãe Marlova ainda acrescenta: “ela escreve muito o que ela sente, a opinião dela, é ela nos textos, quem conhece sabe que é a escrita da Manu. Ela sempre gostou de escrever e sempre escreveu. Eu só desejo sorte para que continue e não desista. Sempre digo para ela que sonhar é livre, tem que sonhar, mas também tem que buscar, se esforçar e acho que isso ela tem feito”.

Mas os dois escritores não são só inspiração para Marlova e Giovani. Luiza Rorato, estudante de Jornalismo de 21 anos, se espelha em Marcelo e conta que não perdia a leitura de nenhuma crônica quando eram publicadas na internet. “Eu acompanhava as crônicas todos os dias que elas saiam, tanto da Manu como do Marcelo, e eu era apaixonada lendo, nas quartas e no sábado. O meu foco no trabalho final de graduação vai ser pesquisar sobre o Marcelo Canellas, a partir de algumas produções dele, eu o adoro, tanto como pessoa quanto como jornalista. O trabalho dele é uma coisa que eu amo, eu me identifico porque a narrativa do Marcelo me toca e ele é muito presente em Santa Maria. Ele é muito santa-mariense, isso faz eu me sentir representada. Já a Manu eu vejo que ela é mais um jeito “mundo nas nuvens”, tem um estilo mais puxado para o literário, enquanto o Marcelo é mais voltado para a veracidade, para os fatos do dia a dia”.

Não importa o estilo de escrita, a linguagem ou as formas de construção das ideias, o que impressiona e diferencia é o sentimento que existe em meio as vírgulas, parágrafos e reticências. As páginas do Cronicaria são puro sentimento. Orlando Fonseca, professor de Letras e escritor, afirma que para ser um escritor é preciso ser verdadeiro consigo mesmo e a Manu nos conta que o ato escrever é uma troca, “espero que não me faltem histórias inspiradoras nesta vida. Seguirei escrevendo, como eu sempre fiz. Se eu tiver a sorte de contar com alguns leitores, melhor ainda, melhor que escrever é escrever e ser lida. A troca é o que deixa a vida completa”. Orlando Fonseca ressalta que, hoje em dia, para se colocar no mercado editorial é muito difícil, então se tu tens um “padrinho” como o Marcelo podes alçar grandes voos. Para ele, o texto vai ter facilidade de circular, se claro, tiveres uma escrita de qualidade.

Assim como o nome Cronicaria foi uma junção de palavras, uma mistura de: cotidiano, crônicas e Santa Maria, o gênero textual crônica também se faz a partir de uma fusão de estilos. Orlando explica que a crônica não tem especificidades, que ela importa técnicas e atitudes de escritores de outras categorias. “A crônica nasce junto com o jornal e com isso tem muito da cotidianidade de quem busca os fatos mas logo também se distancia do jornalismo porque o jornalista busca a veracidade dos fatos ou pelo menos a historicidade do fato, enquanto, o cronista vai buscar no mesmo fato, no mesmo cotidiano, o que foge da realidade, aquilo que é fantasioso, o que é possível produzir uma reflexão lírica. Uma dimensão poética para o cotidiano, o que o jornalista evidentemente não costuma fazer”, explica o professor. Assim, o Cronicaria é a brecha para dois jornalistas suspirarem nos intervalos do texto jornalístico. Segundo Orlando, a crônica é um gênero típico brasileiro, e que não olha o aspecto trágico da existência, mas direciona o olhar às possibilidades do pitoresco e do fantasioso, ainda que trate de fatos contundentes.

Em meio as 95 páginas do livro e 31 crônicas, o Cronicaria, na visão daqueles que o criaram é mais que um livro, é um sonho já realizado de pessoas que acreditam que é preciso olhar as delicadezas do mundo e refletir sobre as indelicadezas da sociedade. Renan Mattos, Marcos Borba, Neli Mombelli, Alexsandro Pedrollo, Elias Monteiro, Denise Copetti, Paulo Tavares, Isabela Grotto, Maria Luiza Milbradt colaboraram de diferentes formas com a proposta e idealização, com “fotocrônicas”, ilustrações sensíveis, texto de apresentação, projeto gráfico, coordenação editorial, web design entre outras funções que então se transformaram em uma obra de 1200 exemplares.

Pessoas de diferentes idades mostraram-se interessadas nas histórias do livro. Luisa, Victor, Maria Luiza e Dion estavam na fila de autógrafos com o livro nas mãos e muitas expectativas em mente. Victor Thiago Reis, de 28 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo adiantou-se e comprou o livro antes do lançamento para garantir a leitura. “Eu comprei o Cronicaria porque conheço a Manuela desde sempre, porque eu curto Jornalismo e porque eu gosto de ler crônicas.  Estou aqui pelo carinho, para prestigiar ela, porque daqui um tempo ela vai longe”. Victor já iniciou a leitura e espera encontrar mais tempo durante a rotina universitária para ficar na companhia do Cronicaria. Já Luiza Mezomo, de 15 anos, estudante e prima da Manu, adquiriu o livro poucos minutos antes de entrar na fila e disse estar ansiosa para ler. “Estou nessa fila agora porque a Manu escreve textos muito bons sobre as coisas que acontecem no nosso dia a dia. Ela consegue expressar o que a gente sente pelas palavras e de uma forma que ajuda as outras pessoas”. A designer gráfica Maria Luiza Milbradt, de 23 anos, que criou a marca do livro e também estava na fila de autógrafos, ressalta a importância de trazer dois autores diferentes em um mesmo livro: “Eu gosto muito do texto do Canellas, e com a escrita da Manu rola bastante identificação por ela ser jovem. Eu não conhecia o texto da Manu, mas por meio do projeto Cronicaria eu conheci e adorei a visão dos textos dela. Eles trazem questões para se pensar sobre a cidade. É legal esse contraponto do mais velho com o mais jovem, de um cara que está fora da cidade, que mora em Brasília, mas que também é de Santa Maria, e da Manu, que vivencia aqui, que está direto aqui”.

Dion Nunes, professor de inglês de 31 anos, ali mesmo na fila já começou sua leitura e demostrou interesse para além da narrativa escrita. Ele ressaltou a beleza das fotografias presentes no livro. “Há muitos anos conheço o trabalho do Marcelo e eu também gostei bastante das fotos que eu estou vendo aqui, inclusive um desses prédios da fotografia foi o primeiro que eu morei em Santa Maria. Essa janela aqui era do meu quarto, então meu quarto está eternizado no livro, já consegui encontrar identificação fora do texto”, comenta Dion apontando uma das imagens do livro.

O Cronicaria foi bem recebido por todos na Praça Saldanha Marinho, nas bancas de livros e no coração de quem o tinha nas mãos. Manu relata que o momento do lançamento foi muito especial. “Eu me senti sendo reconhecida por fazer algo que eu amo e acredito. Estive cercada de pessoas que generosamente torcem por mim e que a admiração é recíproca. Existe sensação melhor que essa? Foi emocionante ver um projeto realizado com tanto amor, sendo amado”. Um livro que nasceu por várias mãos, vários olhares e busca estar na estante de várias pessoas. São “doses homeopáticas de reflexões narrativas cotidianas”, como descreve o título do texto de apresentação do livro. E é complementado por Manu: “As crônicas são leves, mas não são bobas – são reflexões inteligentes e necessárias sobre a vida. É o nosso olhar – crítico, mas generoso – sobre o que já é notícia, sobre o que deveria ser notícia e sobre os detalhes do cotidiano que as câmeras não alcançam. O Cronicaria é para treinar o nosso olhar para o outro”. Quem tiver interesse em adquirir a obra, ela está disponível na Cesma, na Livraria Athena e na loja online da TV OVO.

Por Tayná Lopes

Manuela e Marcelo na sessão de autógrafos do Cronicaria na Feira do Livro de Santa Maria. Foto de Jaiana Garcia

 

 


Lançamento e sessão de autógrafos do livro Cronicaria será no dia 05 de maio, na Feira do Livro de Santa Maria


O livro do projeto Cronicaria será lançado na Feira do Livro de Santa Maria, dia 05 de maio, sábado, às 17h. Além de textos, assinados por Manuela Fantinel e Marcelo Canellas, o livro também traz o que podemos chamar de “fotocrônicas”, de Renan Mattos e sensíveis ilustrações de Elias Ramires Monteiro. A obra, que tem organização da colaboradora da TV OVO Neli Mombelli, é carregada de lirismo, reflexão, cotidiano e narrativas cheias de humanidade. Esta é primeira publicação impressa do selo Sobrado Centro Cultural e da TV OVO.

O Cronicaria é resultado de um processo coletivo, que integra cronistas e leitores desde sua concepção. Ele nasce da proposição da TV OVO em conjunto com Marcelo, Manuela e mais 126 pessoas que, por meio de um financiamento coletivo via internet, contribuíram para a publicação de crônicas semanais, às quartas e aos sábados, no site do projeto, entre agosto e novembro de 2017. Agora, além de receber a versão impressa, o Cronicaria também irá para as bibliotecas das escolas públicas da cidade. As 80 escolas da rede municipal, além da Biblioteca Pública Municipal Henrique Bastide, receberão dez exemplares da obra.

O Cronicaria é um espaço para pensar literariamente sobre o mundo da vida. Falar de amor, de dor, de dúvidas, de política, de afeto, de humor, de encontros, de direitos, de lutas, de deveres, de desencontros, de cultura, de amizades, de resistências, de lágrimas, de sorrisos… enfim, falar da vida que é viva, que se contrai e se expande na espiral do tempo, é o modo como o Cronicaria encontrou não para, de forma impreterível, responder, mas para lançar um olhar sobre temas que estão a nossa espreita, e que carinhosamente chamamos de doses homeopáticas de reflexões narrativas cotidianas.

Muito embora o foco da TV OVO seja o audiovisual, o Cronicaria é mais um dos lastros do Sobrado Centro Cultural, que busca engajar e envolver as pessoas nos liames da escrita, da leitura, do cotidiano, do encontro e da reflexão no intervalo do tempo.

Para quem quiser adquirir o livro, ele já está disponível na Cesma e na Livraria Athena e estará nas respectivas bancas durante a feira. Manuela e Marcelo estarão na sessão de autógrafos do livro no sábado, 05/05. A partir da próxima semana também será possível comprar pelo site da TV OVO (tvovo.org/loja).

 

Sobre os autores

Marcelo Canellas
Formou-se em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria em 1987. É repórter especial da TV Globo desde 1990. Ganhou, em 30 anos de carreira, mais de 50 prêmios jornalísticos nacionais e internacionais. É autor do livro Províncias: crônicas da alma interiorana (Globo, 2013) e entusiasta do projeto santa-mariense Sobrado Centro Cultural, junto com a TV OVO.

Manuela Fantinel
Prestes a se formar em Jornalismo pela Universidade Franciscana, Manuela estuda temas ligados à representação cultural. Feminista e viajante, a jovem santa-mariense sempre dedicou-se à poesia e à literatura, ficando em primeiro lugar na categoria crônica no Concurso Literário Municipal, em 2012. Já integrou a equipe da TV OVO.


Doe para o Cronicaria e faça um workshop de criação de crônicas com Marcelo Canellas


Cronicaria recebe apoios via financiamento coletivo até dia 09 de novembro. O projeto traz crônicas inéditas todas as quartas-feiras e aos sábados, com temas que permeiam Santa Maria, que falam a respeito do nosso cotidiano ou de assuntos que tem gerado polêmicas. Leia as crônicas aqui.

Dentro das recompensas previstas pelo Cronicoria está  um workshop de produção de crônica com Marcelo Canellas, um dos cronistas do projeto,no dia 11 de novembro, na sede da TV OVO, às 14h. A atividade é recompensa para quem dou R$ 300,00 ou mais para o Cronicaria. Então, se você tem interesse em fazer o workshop, ainda dá tempo de doar para a campanha. Além dessa, há outras recompensas conforme os valores investidos pelos leitores, sendo o mínimo de R$10,00. A proposta captou 69% do valor pretendido até o momento, o que nos permite seguir com as publicações até dia 18 de novembro. As informações a respeito da aplicação dos recursos estão detalhadas em cartarse.me/cronicariatvovo, mesmo local em que é possível fazer as colaborações.

As publicações do Cronicaria são assinadas por Marcelo Canellas e por Manuela Fantinel. Marcelo, jornalista santa-mariense de trajetória reconhecida. Manu, uma jovem santa-mariense que frequenta os bancos da academia e representa o olhar juvenil da cidade. As crônicas são publicadas no espaço online (tvovo.org/cronicaria) e, para além de textos, trazem fotografias lindíssimas, a maioria assinadas por Renan Mattos, jornalista recém-formado que tem se dedicado à fotografia e ao audiovisual. Contamos com você, leitor, para seguirmos com as publicações até dezembro.

Print realizado dia 06/11/2017

Print realizado dia 06/11/2017

 


Leia Cronicaria e contribua para que as publicações não parem


Certamente se você está atento às nossas redes, já percebeu que nossas quartas e sábados estão mais literários. Sim, o Cronicaria é um projeto em que buscamos, através das palavras, falar sobre Santa Maria a partir dos olhares e percepções de Manuela Fantinel e de Marcelo Canellas.

As crônicas produzidas pelos dois santa-marienses já podem ser lidas no site do Cronicaria. As publicações iniciaram no dia 16 de agosto. O projeto deve seguir até dia 30 de dezembro. Nesse período de quatro meses e meio, serão publicadas 40 crônicas. Mas para isso precisamos captar  recursos para chegar aos 100% da nossa meta (R$ 12 mil). No momento, estamos nos 67% (R$8.080,00), o que viabiliza o projeto até meados de outubro.

Se você ainda não contribuiu para o Cronicaria, calma que ainda dá tempo. Estamos recebendo apoio pela plataforma do Catarse. Acesse e contribua com essa ideia. Jaiana Garcia é uma das apoiadoras que tem acompanhado fielmente as crônicas e conta que está adorando o projeto. Para ela, a crônica é “uma ferramenta ótima de incentivo à cultura, para novos escritores e de incentivo ao hábito da leitura, ainda mais ao falar sobre nossa cidade e nosso cotidiano”. Também temos acompanhado comentários no site do Cronicaria e nas redes sociais, além de e-mail que recebemos, que demonstram o quanto os textos do projeto estão tocando as pessoas.

Há recompensas para os apoiadores. Por exemplo, quem doar R$100,00 pode sugerir o tema de uma crônica. Já temos duas crônicas que foram escritas a partir de sugestões. Uma delas versa sobre  o amor: os seus encontros, os desencontros e os reencontros, escrita por Marcelo; e a outra trata da questão cultural no Brasil, a partir dos ritmos musicais, pelo viés da Manu.

Apoie e receba doses homeopáticas de reflexões narrativas cotidianas. Contamos com a sua colaboração. E não esqueça, todas as quartas e sábados, novas publicações acalentam nossos corações.

Por Helena Moura

PORCENTAGENS


O site do Cronicaria já está no ar


Nesta quarta (16/08), iniciamos as publicações de crônicas inéditas produzidas por Manuela Fantinel, a Manu, e por Marcelo Canellas. As quartas-feiras são da Manu e os sábados de Marcelo.
 
Mas por que cronicar? Para Marcelo, “a potência da crônica está justamente em esgaçar o banal, para que o leitor, percebendo o despercebido, reconheça nele um significado universal”. Logo, se crônica é potência, para Manu ela tem força porque passa pela percepção da potência do ser humano. “Precisamos acreditar que podemos pensar no ‘algo a mais’. Crônica é isso: é a busca pelo ‘algo a mais’ da rotina e da vida”. 
 
O Cronicaria é mais um espaço que abre brechas para os sentimentos e subjetividades que partem do singular, mas que encontram respaldo no coletivo, porque carregam marcas de anseios, de medos, de crenças, de valores, de lugares, de tempos, de amores, de desilusões, enfim, de elementos que caracterizam o ser humano. Cronicaria é um espaço de reflexão e de expressão. “Para mim, é uma honra escrever ao lado de Marcelo e mostrar que nós, jovens e mulheres, temos muito para dizer!”, complementa Manu. 
 
“Cronicaria é uma cesta de impressões sobre o mundo onde eu e Manu, cronistas de gerações tão diferentes, vamos deixando nosso olhares distintos”, comenta Marcelo, que também faz o convite: “Quem quiser, que apanhe as frutas miúdas do cotidiano que vamos colher pela cidade”.
O site do Cronicaria já está abastecido com as duas crônicas que publicamos durante a campanha de financiamento coletivo. Memória, é uma crônica de Marcelo publicada no seu livro Províncias: crônicas de uma alma interiorana. Já Sobre mim,sobre você e sobre ela é uma crônica que Manu escreveu especialmente para a campanha. E o Cronicaria continua com sua campanha de financiamento coletivo aberta até início de setembro. A meta é captar R$ 12 mil para que sejam publicadas 40 crônicas entre 16 de agosto a 30 de dezembro deste ano. Até o momento, captamos 65% do valor pretendido, o que financia as publicações até meados de outubro, totalizando 20 crônicas.
 
O projeto é capitaneado pela TV OVO. Somos um coletivo santa-mariense que trabalha com formação audiovisual e com o registro da memória da cidade. Para além do audiovisual, atuamos nas discussões a respeito das políticas culturais locais e desenvolvemos diversos projetos na área. Cronicaria é mais um deles que busca engajar e envolver as pessoas nos liames da escrita, da leitura, do cotidiano, do encontro e da reflexão.
 
Doações para a campanha podem ser feitas em catarse.me/cronicariatvovo

cronistas
Confira os vídeos que produzimos para a campanha do Cronicaria.


Sobre mim, sobre você e sobre ela


Para comemorar os 26% atingidos até o momento do financiamento coletivo para o Cronicaria (Acesse e doe em: catarse.me/cronicariatvovo), a Manuela escreveu uma crônica. Uma crônica sobre a crônica, para dar gostinho do que será o Cronicaria. A gente agradece de coração as contribuições e seguimos em campanha até o dia 08 de agosto. Em tempo, Cronicaria é um projeto que depende de você e é para você: são crônicas de Manuela Fantinel e Marcelo Canellas que serão publicadas entre agosto e dezembro, nas quartas-feiras e sábados. 

Sobre mim, sobre você e sobre ela

Eu queria tocar a campainha do céu. Você, na ponta dos pés, abriria a porta. Talvez estivesse só de fraldas e pés descalços. Uma possível meleca no nariz. Eu tentaria pegar você no colo. Assustada, fugiria de mim. Arriscaria uma brincadeira – ou cócegas, no auge do meu desespero – e você ia achar graça. Porque as crianças acham graça! Ou não. Você já passou por tantas coisas que talvez não ache o mundo um lugar engraçado ou gracioso. E a verdade é que ele costuma não ser – o que me entristece é que você, tão nova, já tenha descoberto isso. Na última terça-feira, 11 de julho, uma criança de três anos perdeu a vida em Santa Maria. Ela foi vítima de violência doméstica. Os agressores? A mãe e o padrasto.

Algumas histórias não são boas de serem contadas ou agradáveis de serem ouvidas. A televisão nos mostra e, na hora do almoço, ninguém quer falar sobre o assunto. O único comentário que costuma rolar é um “têm coisas que não dá para acreditar, né?”. Não dá para acreditar e, então, não acreditamos… E seguimos como se isso não fosse real – a vida precisa seguir, afinal. Escolhemos nos proteger (por covardia) e praticar a aceitação (e o egoísmo). Vira banalidade. Mas aí eu me lembro da minha afilhada de quatro anos, tão inteligente, incrível e “cheia de graça”, e entendo que a humanidade não falhou em sua capacidade de amar, mas na má distribuição do amor. E do dinheiro. E da educação. E da comida. E de tudo que se propôs a fazer.

Nós não temos o dom da empatia, o dom do amor ou o da compaixão. O que temos, na verdade, é o dom de desenvolvermos os melhores e os piores sentimentos do mundo – o que é tão encantador quanto, mas exige um pouco mais de nós. A crônica, como uma mágica, chega ao mundo para nos despertar e nos educar para essas emoções. Porque eu não escrevo fantasias, roteiros hollywoodianos ou histórias para dormir. Eu escrevo sobre mim, sobre você e sobre ela. As histórias que ninguém quer ler, mas que todos torcem para que sejam escritas. Se a crônica é sobre nós, ela não é apenas sobre a vida. Ela também é sobre a morte. É sobre tudo, ou sobretudo, no que está entre. Crônica é sobre o choro e o riso – às vezes, no mesmo texto -, como a vida é – às vezes, na mesma hora.

Se a crônica fosse alguma parte do ser humano, seria a pele. Não adianta ignorar – fechar os olhos ou os ouvidos -, quando algo te corta, vai doer. Quando algo te arrepia, é impossível evitar: vai arrepiar. A crônica não é a televisão e os seus olhos, não é o rádio e os seus ouvidos – e não é melhor que nenhuma delas -, é apenas o que há de mais animal em nós. É a reflexão marginal. A consideração sobre os nossos acertos e fracassos – esses que grande parte da humanidade evita pensar. É. Talvez cronicar seja um respiro de autoconhecimento e, por isso, de esperança. Alguém precisa deixar registrado que, apesar dos romances encomendados e das ficções que enchem as salas de cinema, a realidade continua extraordinária!

Dessa Terra, no fim, a gente só leva a meleca do nariz – uma semelhante a que a criança a qual foi tirada a graça teria se abrisse a porta para mim, e essa mesma que a minha afilhada, tão amada, também tem. E isso é importante que a gente nunca esqueça: o mundo gosta muito de apontar as nossas diferenças (religiosas, culturais, ideológicas). É o que dá ibope. Mas contar as histórias do cotidiano é uma oportunidade de mostrar que as nossas semelhanças são muito maiores que as discordâncias. Porque se você olha para o lado e não consegue ver o outro, aqui você vai ver o outro olhando para você – e isso vai te cortar a pele, se for preciso; ou arrepiar, se nós tivermos alguma sorte. Quem lê sobre a realidade de quem está distante não corre o risco de achar que a vida é pequena. Ela é grande – nem sempre longa, nem sempre graciosa, mas sempre grande, como só um amontoado de palavras poderia ser.

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