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A aposta na grande reportagem em tempos de internet


Eram 19h de uma noite de quinta-feira. Mas sem dúvida, não uma quinta qualquer. Dia 12 de maio: aniversário da TV OVO e dia de discussão sobre jornalismo. O Theatro Treze de Maio estava lotado e a segunda mesa do Colóquio 100/20 estava pronta para se formar. Sentados sob as luzes do palco do Treze, ao lado do mediador Marcelo Canellas, estavam os jornalistas Andrea Dip, Mauri König e Humberto Trezzi.

Conhecidos por suas diferentes trajetórias, eles vieram à Santa Maria conversar com estudantes, professores, jornalistas, pesquisadores e interessados sobre o passado e o futuro do jornalismo. E por falar em futuro, o clima era de esperança. Trezzi, jornalista da Zero Hora, deu início à conversa e foi responsável pela primeira injeção de otimismo: “Eu acho que estamos vivenciando o melhor momento para fazer grandes reportagens no jornalismo, inclusive nos veículos impressos”, apostou ele.

O debate se deteve à produção de grandes reportagens investigativas na era da volatilidade da internet. Será tão quimérico a busca pela perenidade em uma época onde as notícias se tornam velhas tão rapidamente? König, jornalista independente, não acredita ser. Segundo ele, o jornalismo voltado para as grandes reportagens vem se fortalecendo no país e a internet é catalisadora dessa produção. “Precisamos pensar em todo o potencial que a internet nos proporciona e como ele vem sendo utilizado”, arrebatou o premiado jornalista.

Outra grande questão apontada por Mauri foi o financiamento dessas matérias. Quando matérias investigativas são desvinculadas de um meio de comunicação tradicional, abre-se portas para que os profissionais trabalhem em uma única reportagem durante um vasto período de tempo, contudo, é necessário recursos para a produção da reportagem. Já, quando uma ela está na pauta das grandes redações, a reportagem corre o risco de se misturar à demanda comum de trabalho e a maioria dos jornalistas acaba não tendo a possibilidade de dedicação integral à investigação.

Andrea abordou a experiência na Agência Pública de Jornalismo Investigativo e as possibilidades deste financiamento. A Agência é apoiada por fundações internacionais e também se utiliza de financiamentos coletivos, os crowdfunding. A Pública também age como moderadora de oportunidades e oferece bolsas para jovens jornalistas que podem inscrever suas pautas e ganharem o incentivo para executá-las. “Acho que o sonho de todo o jornalista é ser apoiado pelo público que lê as reportagens”, afirmou Andrea.

Para quem pensa que a internet deve trazer sempre notícias ínfimas e fragmentadas com a justificativa de que os internautas não lêem conteúdos extensos, Trezzi e Andrea refutaram essa teoria. “As pessoas lêem grandes reportagens, sim. Os leitores pedem por elas e quando elas saem, têm grande repercussão na maioria das vezes”, comentou Trezzi, que trabalha com o impresso. Cabe aos jornalistas então, entender a lógica dessa produção para diversos meios, como a internet que nos proporciona a utilização de uma linguagem rica, com possibilidades multimídias, e uma apropriação rápida. Sobre essa questão, Andrea salientou o poder de replicação que a internet possui – o copyleft que a Agência Pública procura disseminar em suas matérias que são em plataforma online.

A aposta foi unânime: o jornalismo independente vem se fortalecendo no Brasil, nos últimos anos, e muito dessa visibilidade se dá por meio da rede. A produção das chamadas grandes reportagens nos dá a possibilidade de deixar de nadar no raso das hard news. Nos possibilita estudo e compreensão de assuntos de interesse público que merecem um olhar mais apurado e cuidadoso. Um tipo de jornalismo engenhoso, perspicaz e corajoso. Corajoso para quem aposta. “É um jornalismo que nos permite amarrar todas as pontas da informação”, conclui Andrea Dip.

Por Julia Machado e Helena Moura 

Foto Renan Mattos
Colóquio grande reportagem


No palco do Treze, os grandes atores da reportagem falam sobre os rumos dessa peça


Se a notícia é o lugar comum do jornalismo, lugar em que as perguntas básicas de uma apuração são capazes de informar minimamente o leitor, ouvinte ou telespectador sobre determinado assunto, a reportagem é a ferramenta que possibilita ao repórter problematizar mais a fundo um determinado tema. Mas, passados os anos-dourados da grande reportagem como o trunfo que estampava capas de jornais e revistas, a crise no modelo de negócios do jornalismo industrial tem imposto dias ruins às grandes redações, que veem suas vendas e assinaturas caírem vertiginosamente, e aos próprios jornalistas, que, se não acabam desempregados em revoadas de passaralhos, tem suas atuações limitadas pelas condições de trabalho em quadros enxutos de funcionários.

Em teoria, o advento da internet – e, principalmente, o aumento no número de pessoas com acesso à internet (mesmo que esse número aponte uma exclusão de metade da população brasileira) – teria sido o responsável pela quebra no modelo de negócios estabelecido, e, então, pela impossibilidade de se realizar um jornalismo amplo, diverso e profundo, com o emprego de tantos recursos quanto fossem necessários, e que chegasse a tantos leitores, ouvintes e telespectadores como antes. Se hoje nenhum teórico no mundo conseguiu chegar à conclusão de um modelo viável para a atividade e  se vários veículos estejam se rendendo a listas buzzfeedizadas e caça-cliques, isso não significa que não existam iniciativas e pessoas que persistam na realização de um jornalismo que segue os grandes preceitos da profissão. Iniciativas como o financiamento por crowdfunding ou a apuração virtual de grandes bases de dados, como no recente caso dos Panama Papers, mostram como os aspectos do coletivo e do virtual têm sido essenciais para o desenvolvimento de reportagens que efetivamente mexam naquilo que está posto.

É com a ideia de debater sobre o exercício da grande reportagem no Brasil – da maneira como se deu nos últimos anos e de como a internet tem influenciado a prática do jornalismo – que traremos, à Santa Maria, profissionais de naipes variados e que são reconhecidos por suas reportagens. São profissionais garantidos em grandes veículos por uma longa carreira de sucesso, como é o caso de Mauri König, que atuou por muito tempo como repórter da Gazeta do Povo de Curitiba e hoje escreve para Folha de São Paulo, e de Humberto Trezzi, repórter da Zero Hora, de Porto Alegre, ou garantidos em novos espaços nascidos nesta década de incertezas, como é o caso da Andrea Dip, repórter da Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo.

No próximo dia 12 de maio, não sairemos do Theatro Treze de Maio com conclusões definitivas sobre como o jornalismo passará a ser executado. Longe disso. Duvidamos também que alguém saiba nos dizer. Esperamos, porém, que  após a conversa com aqueles que praticam um jornalismo de qualidade no país, a partir das 19h, muitos possam sair do Theatro minimamente inspirados para fazer o mesmo.

E para quem quiser mais debate, às 16h do mesmo dia tem outra conversa sobre  Novas plataformas, debate público e agendamento na era da internet. O colóquio é uma realização da TV OVO em parceria com o curso de Jornalismo da Unifra e com o programa de pós-graduação em Comunicação da UFSM. Senhas poderão ser retiradas pelos acadêmicos junto aos cursos de jornalismo e para o público em geral na portaria do Theatro.

Por William Boessio

colóquio investigação