Sobre o Futuro, nosso velho amigo

Mais um Natal, um verão e um outono e eu serei jornalista. No próximo inverno, quando as crianças parecerem ursos com capuz e os adultos parecerem crianças, eu realizo um dos meus sonhos mais antigos. Se eu afirmasse que há alguma certeza em tudo que planejo para os próximos dez anos, o destino me enviaria uma carta com um longo “hahahahaha” – uma parecida com a que os mais velhos recebem quando começam a ficar ansiosos para decidir como irão se ocupar depois de se aposentarem. É pau e é pedra e se tudo der certo não será o fim do caminho – seguir em frente e não saber o que está por vir pode ser um pouco ou muito perturbador, mas só há uma coisa ainda pior: não descobrir.

O futuro é uma estação que ninguém sabe onde é o embarque e o desembarque e nenhum de nós – não apenas os míopes – consegue identificar se o clarão é a lua que está cheia ou se é só o poste de luz do outro lado da rua. Ah, como é difícil se acostumar com as expectativas e incertezas! Onde eu garanto um lugar na janela nessa viagem para o amanhã? Vou ter uma companhia no assento ao lado? Quem sabe um jazz nos meus fones de ouvido e um livro sobre plantas medicinais embaixo do braço? O spoiler nunca nos encontra quando nós precisamos dele. “Seguir em frente” era seguro com os maquinistas. Hoje, viver está mais para um táxi, um GPS estragado e um “faça o retorno”. Estamos todos perdidos e, entre uma fila de iguais que dividem o mesmo espaço, os que fazem planos para o futuro e os taxistas sempre acreditam que serão os escolhidos: entre sonhos amarelos, o mundo reconhecerá o meu sonho colorido.

A menina de cinco anos e a avó de nove décadas brincam no jardim:

– Como é o futuro, vovó? Quem vive lá?

– Minha querida, a vovó também não sabe… Alguns apostam em carros voadores. Legal, não é?!

A senhora, enfim, convive com o futuro há quase um século e ainda não consegue caracterizá-lo. Não é de se surpreender, eu sei bem mais sobre a Juliana Paes do que sobre a síndica do meu prédio. As barreiras que criamos em relação ao futuro sustentam um amor platônico – um dos envolvidos (o futuro) desconhece o compromisso, mas o outro (cada um de nós) já arquitetou dezenas de planos para os dois. Está tudo errado, mas vai dar tudo certo: o futuro é o nosso herói. É fácil admirar o desconhecido e prezar pelo que já passou, por isso colocamos o primeiro em um pedestal e o segundo em um porta-retratos. O futuro, todavia, talvez não seja um novo modelo de celular. Talvez se aproxime bem mais da minha vizinha que está ouvindo e cantando “é preciso saber viver” às quatro horas da tarde de uma terça-feira.

Concluir a faculdade e não se frustrar, pensar sobre a aposentadoria e não se entediar, terminar um relacionamento e não se perder, fazer um trajeto solitário e não se emocionar com casais apaixonados: o amanhã nunca será sobre diplomas, carros voadores ou alianças, ele sempre será sobre nós. O futuro está na Gare da Estação, onde eu e você passamos tantas vezes e nem vimos o tempo passar. Quando eu entro em um táxi às seis da manhã, depois de uma festa e ainda sem dormir, e o motorista me recebe com um “bom dia”: lá está o futuro, meu velho amigo, chegando sem que eu esteja pronta para recebê-lo. A avó que viu a cidade e a sociedade se transformarem sabe discursar quanto ao passado e não consegue se manifestar a respeito do futuro. Ela é o futuro. O futuro é uma mulher que ouve e canta “é preciso saber viver” para estar mais forte quando chegar a quarta-feira.

Uma conquista, uma despedida, um “quer casar comigo?”, uma decepção ou uma gravidez. O futuro é o temporal que destrói árvores e casas, mas também é o sol que nasce no dia seguinte como prova do seu amor e da sua fidelidade. Na minha estação, durante as quatro estações, é sempre embarque. Tal qual uma taxista, deixo a porta sempre aberta: o futuro está na próxima esquina, não está na próxima década. Deixa andar!

 

Por Manuela Fantinel

Foto de Renan Mattos

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