Os brasis que cantam

Estive no Rio de Janeiro. Fuscas coloridos enfeitavam o Leblon enquanto Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, com os pés na areia, respiravam música. Caetano brindou: “Eu organizo o movimento. Eu oriento o carnaval!” e, então, eu acordei. Os brasis que eu não conheci fazem parte de quem eu sou hoje. E eu sou uma bagunça! Meus sonhos, meus amores e minha playlist não seguem um padrão: eu quero é descobrir o que há depois do caos, mesmo que, para isso, eu precise sonhar tão geograficamente longe, me apaixonar e me desapaixonar em uma frequência incompreensível e aceitar o seu convite para dançar forró – sem saber dançar forró.

Eu sou um Brasil difícil de rotular e é por isso que, quando questionada sobre um possível “empobrecimento cultural” em relação aos interesses da população brasileira, respondi que nunca fomos tão ricos. Em meio a uma onda de pensamentos retrógrados, sugiro que não sejamos iludidos por análises mesquinhas. Vamos pensar grande! O Rio de fuscas coloridos não é mais o mesmo. Os “altos e baixos” ultrapassam os morros – a população é ainda mais complexa. Sinto muito, mas não é mais o Caetano quem organiza o movimento e orienta o carnaval. Como poderíamos querer que o discurso fosse igual se as ruas gritam novas dores, delícias e reivindicações? Não é que a Garota de Ipanema tenha saído de moda, mas acredito que o Tom Jobim também gostaria de conhecer a poesia das Garotas de Outros Lugares.

E é por saber que nem todos se interessam por esses “outros lugares” que eu não consigo desassociar a perspectiva do “empobrecimento cultural” da constatação de que “a cultura dos pobres está recebendo mais atenção do que a cultura dos ricos”. Afinal, o incômodo é realmente em relação ao conteúdo ou é em ver o sucesso com quem você julga não merecer? Mas… Sucesso é dinheiro? Reconhecimento é estar no topo da lista de músicas mais ouvidas, como é o caso da Anitta, ou receber o prêmio de “Melhor Cantora” no 28º Prêmio da Música Brasileira? A vencedora, Maria Bethânia, parece não estar muito preocupada com o Spotify. “Ai se eu te pego”, do Michel Teló, estourou mundialmente em meados de 2012 e deixou alguns brasileiros desacreditados. Para quantos amigos você contou que a Elza Soares foi eleita “A melhor cantora do milênio” pela BBC e recebeu o Grammy Latino na categoria de “Melhor álbum de música popular brasileira” em 2016? Eu também fico triste em saber que um único filme, o “Minha mãe é uma peça”, tenha arrecadado quase 120 milhões em bilheteria e que outros milhares não sejam bem-vindos nas telonas brasileiras. Mas será que o propósito do grande vencedor do Festival de Cinema de Gramado deste ano, o longa “Como nossos pais”, é criar filas em shoppings?

Se apontar quem é o melhor é a única forma de constatar se estamos enfrentando um processo de empobrecimento cultural, então encerramos o assunto. A cultura não é sobre competir. É sobre se expressar! E a globalização informa: está difícil viver em uma bolha. As oportunidades e as vozes se multiplicaram. Quando você liga a televisão e vê um menino de 18 anos cantando funk e ostentando correntes de ouro, a sua bolha é estourada sem o seu consentimento. É a rebeldia espontânea de quem faz arte – os artistas e os arteiros – e descobriu que as opiniões não podem mais barrar as criações. Quem sabe aprendemos a conviver? As produções não se perdem pelo caminho: o cálculo é positivo e os brasis que eu não conheci fazem parte de uma bagagem que só cresce. Em um mundo ideal cabem todos os mundos – fiquem tranquilos, os seus netos também vão saber quem foi Tim Maia, Elis Regina e Cartola. A Anitta não ocupará toda a bagagem – ainda que eu torça para que ela vá longe!

Você pode pensar que eu sou muito otimista e não concordar comigo. Tudo bem. Eu discordo de mim o tempo todo. Enquanto ouvia Kid Abelha, quis ter 30 anos, filhos e uma casa na praia. Depois, ao som de Karol Conka, desejei ser jovem para sempre. Começou a rodar uma música gaúcha que eu aprendi a gostar com o meu pai. Deu vontade de viajar. Fiz um café e me entreguei ao novo álbum do Chico Buarque, Caravanas, mas quando a playlist sugeriu Marília Mendonça eu quis beber algo mais forte. E bebi. O Brasil é plural e eu não quero ser singular.

Gracias a la vida que me ha dado tanto: sou tão rica de amor que jamais conseguiria escolher apenas uma trilha sonora para falar sobre mim. Acontece o mesmo com o Brasil. Tudo é cíclico – eu, você, a história, os modismos musicais e a sequência de uma playlist. Não vivemos em um país justo ou coerente. Ele está uma bagunça e essa bagunça precisa nos bagunçar. A indiferença alimenta a ignorância que sustenta o ódio – estoure a sua bolha! As janelas e batuques estão nos enviando mensagens. São os brasis querendo conversar conosco, chorando enquanto bailam e bailando enquanto choram. E se, por fim, “você é as músicas que você ouve”, sobre mim não restam dúvidas: do meu samba eu fiz folia, mais arteira do que artista, para ser muitas em uma só.

 

Por Manuela Fantinel

Foto de Juliano Dutra

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