Humor é papo sério

Cultura, história, política e arte. Na rua, no palco, no céu ou no inferno. Para rir, chorar, refletir ou esquecer-se de tudo. Na expressão, no silêncio, no grito e na música. Um gênero, uma construção ou uma ferramenta de transformação. É ele: o remédio ou a faca. O amor ou o ódio. O luxo ou a merda. O pudor ou a licença poética para escrever, aqui, sem medo: merda! Se os tempos são de cólera, há quem, através da arte, nos faça cócegas. Cócegas (substantivo): uma defesa do organismo. Humor (substantivo): uma defesa da morte – o riso também se cria no desespero, mas quem é engraçado no país dos desgraçados?

Transgressor e pontual, o poder de fazer rir é um dos que mais me interessa e não gosto de vê-lo com espíritos pouco graciosos. Vamos comprar a briga: entre os incontáveis desconfortos que a família Bolsonaro produz em mim, um dos principais é a prepotência de querer fazer graça  – não basta arquitetar um discurso de ódio ou reforçar um ciclo vicioso de violação dos direitos humanos, é preciso tornar o assunto uma piada, uma conversa fiada, e a qualquer custo. Nas falas, discussões, entrevistas e redes sociais, o deputado usa o humor como um contorno para as suas opiniões estreitas – ilustradas com um coração ou um “paz e amor” com as mãos.

Para os fãs, Bolsonaro é uma figura divertida. Até o rótulo de “mito” parece ter surgido de sua forma de se comunicar: ele não responde, ele “mita”. Mascarar a preguiça argumentativa com o humor, como se a sua maneira de agredir e insultar fosse brilhante, me deixa sem graça. Gerar empatia é uma das finalidades do fazer rir, mas alguém precisa dar um jeito nessa história de achar a estupidez engraçada. Nem o mais carrancudo dos seres ou a mais sombria das falas me causa tanto asco quanto um discurso de ódio difundido com um sorriso no rosto e seguido de uma cínica e ensurdecedora gargalhada.

Tudo bem, cada um sustenta a comédia (e os comédias) que acredita. Não há como controlar o riso, mas se ele é uma construção cultural, podemos nos reeducar e devemos, ao menos, ter a coragem de realizar uma autocrítica sobre o que nos faz rir. Qual o contexto? Em que época estamos? Essa não é uma discussão que gira em torno dos políticos, mas é, sim, um debate político – as expressões culturais do humor nos ajudam na compreensão das sociedades. Que sociedade é a nossa que ainda ri das minorias? Por que não usamos o humor para mostrar aos mais poderosos que eles também são reles mortais? As comédias gregas são uma viagem no tempo e se, no futuro, alguém estiver curioso sobre os dias de hoje e buscar saber mais por meio de nossas produções humorísticas, vai descobrir, antes de tudo, que nós não concordamos em nada! Será fácil encontrar bons espetáculos e grandes profissionais, mas será difícil explicar o riso-nosso-de-cada-dia e uma plateia que ri de um vídeo onde um deputado diz “eu só não te estupro porque você não merece”. Danilo Gentili entrevistando Jair Bolsonaro já é, de antemão, na melhor das hipóteses, algo que eu espero que as próximas gerações não assimilem.

Até hoje, ninguém conseguiu desvendar o humor. Ele continua sendo um tema que precisa ser problematizado, mas não resolvido: sem explicações, sem limitações. Esse é o charme! Ele está acima das opiniões humanas, não precisa ter direitos ou deveres, pois o riso é uma forma de manifestação tão pessoal e poderosa quanto o silêncio. O humor não tem obrigações comigo, mas eu tenho com ele. Somos responsáveis não só pelo que transformamos em piada, mas também pelo que nos faz gargalhar. Quem quiser contribuir com as tragédias que vá procurar algum outro palco – a essência do fazer rir é para quem tem a sorte de ainda chorar pelo outro.

Por Manuela Fantinel

Foto de Renan Mattos

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