Crônica do amor desencontrado

Há no amor um tempo insondável, etéreo e fugidio, impermanente e impalpável. Eu te vi agorinha, sinto a luz ainda quente dos teus olhos, embora isso tenha sido há anos. Eu não sou mais quem eu era naquele dia remoto. E nem tu és quem eras. Mas a lembrança fossilizada do momento preciso em que o encantamento nos tomou, caçoa das horas e das experiências vividas por cada um de nós, para congelar aquele instante na câmara fria das emoções perenes. É como uma foto capturando a alma dos índios. É feito aquela brincadeira infantil de antanho: estátua! Gritamos e ficamos como estávamos. Embora a vida tenha seguido. Embora nossos relógios tenham badalado mil gotas de cristal estilhaçadas no chão de nossos caminhos tão diferentes.

Eu, outro dia, te encontrei em meio à multidão disforme do centro da cidade. O cabelo era teu, o jeito de andar, os meneios e os trejeitos eram todos teus. Parecia mesmo que era tu. Mas à medida que a graça de teu vulto foi se aproximando de mim, entendi que te procuro no mundo, te achando de vez em quando na mimese involuntária dos outros. Quando o véu da confusão se desfez, desmascarando o engodo ao revelar o rosto de outra mulher, vivi a frustrante sensação de uma perda. Muitas vezes te perdi no desmanche dos enganos desfeitos. Mas a cada um desses lutos fugazes, me dou conta de que, se te enxergo nas pessoas, é porque estás em mim, é porque há um pouco de ti na matéria com que me refaço a cada dia como homem.

O amor resolve tudo, tu me dizias. E a dissipação de todas as incertezas, de todas as angústias, de todos os nossos medos dependia dele como bússola de orientação. E se há sempre algo de humano, louco e desmedido naquilo que nos contradita e aproxima, há também o norte da benquerença a nos aprumar. Não era preciso jantar numa varanda de Paris ou à beira de um canal de Veneza. Um macarrão com molho pronto de supermercado, duas taças de vinho barato no balcão da cozinha de um hotel de interior, e pronto.  Resolvíamos os dilemas da humanidade antes mesmo do galo cantar. Ou então nos lixávamos para tudo, protegidos pela bolha impermeável de nossa cama, livres do mal exterior, enroscados na confusão das nossas pernas e no ócio benigno de um domingo preguiçoso. Eis o grande encontro que o amor proporciona.

Desencontro é quando o amor acaba? Pois se é amor, não teria ele, com seu condão mágico e absoluto, o dom imanente de resolver os entraves da convivência para perenizar o encontro? Não subestimemos nossos fantasmas, nem as imposições da vida, nem nossa incapacidade de ler o outro, de compreender o nosso próprio caos, de purgar o peso de nossas culpas e a dor de nossos ressentimentos. Demasiadamente humanos, somos tentados a nos desencontrar. Se é verdade que alguns amores acabam, outros simplesmente se desencontram. Ou porque são – ou se tornaram – de fato, incompatíveis, ou porque, de tão compatíveis, se sabotam. Para esses, o desencontro é apenas um casaco vestido do avesso. Algo ali está mal posto. Até que alguém lhe mostre a etiqueta do lado de fora, e lhe ajude a vestir a roupa do lado certo, recompondo a arrumação do mundo para o bem de todos os que amam.   

Marcelo Canellas.
Foto de Renan Mattos.

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