Aninhada

Um vulto invade a sala. Nada de fantasma; como sempre, temo. No lugar, um pequeno vulto, quase minúsculo, se faz presente. Estamos todos na sala, frente à TV que grita as dores de um documentário investigativo. As crianças estão com os olhos voltados para as luzes que saem do aparelho, o clímax está perto. Meu companheiro de muitos anos, com a cabeça baixa, olha as notícias do futebol na tela do smartphone, ausente do enredo da TV e da vida real. Naquele momento, sinto que apenas eu vejo o pequeno ser que dá voltas, incertas, na sala de pé-direito elevado. Ninguém sequer percebe que o vejo.

Entrar na casa de alguém não é tão simples como entrar por uma janela aberta. É preciso mais do que isso. É necessário que alguém saiba que o estranho está lá. Um beija-flor perdido, debatendo-se nas paredes e no teto, parece querer sair, mas uma linha invisível o prende no nosso lugar. Uma não, muitas linhas. Na verdade, uma trama enredada de um fio bem fino, quase imperceptível aos mais desatentos. De repente me pergunto: Quem o chamou ali? Como sairá? Descobrir a saída é bem mais complicado do que ver o vão do lado de fora. Em um segundo você é invisível, no outro está ali.

Um ninho, de fora, sempre parece aconchegante, tranquilo, sereno, mas apenas quem se assenta nas suas palhas sabe no que pode ser desconfortável. Nem sempre é um bom espaço pra se acomodar, ainda mais quando não é o seu lugar. Outra pergunta vem à cabeça: É sempre preciso ter ninho? Queria sair por aí a bisbilhotar ninhos outros: selvagens, sem palha, sem endereço certo, sem rotina. Deve ser coisa de quem já passou dos 40.

Nem todos veem o vulto, o estranho. O pássaro belo e delicado, de batidas de asas rápidas, continua a circular e a debater-se, percebendo não ser este o seu ninho.  A estranheza é visível. Quem sabe estava somente querendo alçar um voo rápido, transitório, e já cansado desejava voltar ao seu próprio ninho. Há um sofrimento expresso na rapidez com que se move e busca fugir. Meus olhos o seguem por toda a parte. Imóvel, sinto que posso ajudar de longe, apenas com o meu olhar.

(In)felizmente ele sai. Movimenta o ambiente, e sai. Meu coração se aquieta de novo. Cada um tem o seu lugar no mundo, penso. Olho meu entorno e tudo parece como antes. Todos seguem o que faziam quando o vulto, ligeiro, passou. Uma sensação de perda me invade.

 

Por Fernanda Kieling Pedrazzi

Foto de Neli Mombelli

 

* Esta crônica foi produzida por Fernanda no Workshop de crônicas com Marcelo Canellas, uma das recompensas para quem colaborou com o financiamento coletivo do Cronicaria. Marcelo propôs que as participantes escrevessem a partir de uma cena, que era a de um beija-flor adentrando em uma casa por uma janela.

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